AC/DC 2026: (AINDA) HIGH VOLTAGE ROCK’N’ROLL
26 de fevereiro de 2026
De volta ao Brasil após 16 anos, banda australiana despeja caminhão de hits em performance avassaladora – e tem mais dois shows na agenda
Por Carlos Eduardo Oliveira
Tenho um amigo influencer muito seguido, rocker da primeira prateleira, que postou que não iria à Power Up Tour no Brasil “para preservar memórias passadas”: “o AC/DC de hoje parece banda cover”, cravou.
Confesso que vídeos recentes também me causavam apreensão. Quer saber? Perdeu, playboy.
Porque o que se viu e se viveu no estádio Morumbis, em São Paulo, na noite da última terça foi, pra carimbar o clichê, histórico. Prova inconteste que o rock, amigos, volta e meia dá sinais de suas sete vidas.
O “efeito AC/DC” podia ser aferido pela interferência na cidade em uma terça-feira, superando as de gigantes como Iron Maiden e Metallica. No entorno do estádio (e a quilômetros deste, com centenas de ônibus e vans de excursões), poucas vezes se viu tamanha mobilização. Tampouco o inimaginável “bazar persa” ao seu redor, com milhares (sim, milhares) de ambulantes e barracas vendendo literalmente de tudo.
Faltando uma hora para o show, parecia não caber mais ninguém no estádio (todos os 70 mil ingressos da primeira noite vendidos), com os iluminados “chifrinhos do Angus” emprestando um vermelhíssimo colorido noturno.
Os trabalhos foram abertos pelo simpático Pretty Reckless, tratado pela produção dos anfitriões como banda de abertura: num puxadinho no canto do palco e sem acesso ao todo do sistema de som e muito menos, da iluminação. Sensual, sobre botas de plataforma gigantes, a boa vocalista Taylor Michael Momsen parecia forçar meio a barra na inteiração com o público (que os acolheu muito bem) e nas declarações de amor ao AC/DC. O set de dez canções fechou com a ótima “Take Me Down”.
Quiseram os astros que a emblemática “Sweet Leaf”, do Black Sabbath, antecedesse o inspirado clipe de abertura: um hot rod (carro de corrida vintage) a mil pelas estradas com destino a São Paulo e estacionando cirurgicamente no backstage do Morumbis – muito legal.
A partir daí, manda o bom jornalismo que… .. bem, às favas as convenções: é relaxar e viajar na vibe.
Sabe aquele hit executado enésimas vezes em rádios cool como a Mundo Livre FM? E pela banda cover do seu barzinho das sextas? São os caras! Ali, na sua frente! O boogie mais eletrificado do planeta, materializado.
No comado, Angus Young, único remanescente da formação original, e suas Gibson SGs – o guitar man que um dia fez o ex-agitado Pete Townshend, do The Who, parecer uma estátua, tamanha a inovadora e frenética movimentação em cena, nunca vista antes dele. Hoje um venerável senhor, Young, além dos 70 anos, um fumante inveterado, não tem, claro, o mesmo gás. Mas suas notas e acordes ferinos permanecem intactos. E as SGs continuam enormes em suas mãos, ante os seus meros 1,57 metros de altura.
E Brian Johnson nos vocais? Sem a mesma potência rascante de antes, mas dando plenamente conta do recado. Exalando carisma, com o costumeiro visual “caminhoneiro rocker”. E visivelmente contaminado pela energia do público, sentindo, de fato, o show. Os mestres mostraram-se à vontade. Divertiram-se, ao longo dos 140 minutos de show.
Apesar das paredes triplas de amplificadores Marshall empilhados, o som, perfeito, era até mais baixo que o esperado – mas ganharia um “grauzinho” no decorrer da noite.
O setlist foi pra lá de generoso, passeando por todas as fases do AC/DC. Incluiu achados ancestrais como “Riff Raff”, e a abertura com “If You Want Blood”; revisitou o seminal Back in Black, com a faixa-título e mais “Shoot to Thrill”, “Hells Bells” e “You Shook All Night Long”; de Power Up, o último registro de estúdio (2020), vieram “Shot In the Dark” e “Demon Fire”; não faltaram pérolas deliciosas como “Sin City” e “Shot Down in Flames”. Hits? “Thunderstruck”, “Highway to Hell”, “Jailbreak”, “Dirty Deeds Done Dirty Cheap”, “High Voltage”, “Whole Lotta Rosie”, e contando. Faltou “The Jack”? Tudo bem.
A dinâmica de palco é velha conhecida: ao fundo do palco, bateria ladeada pelo baixo (Chris Chaney) à esquerda, e guitarra-ritmo (Stevie Young, o sobrinho) à direita, com a dupla avançando para os vocais de apoio. Nas baquetas, Matt Laug mantém a tradição de um só bumbo, característica do som da banda. Angus, chamado por Johnson de “mister bad boy boggie”, só revela sua voz em raríssimos backing vocals. E ainda mantém o tradicional “pulinho”, não tão elevado como outrora, assinalando o final das canções.
Também surpreende – mas não faz falta – uma produção cênica nem tão grandiloquente, como se esperaria de um grupo com tal status, restrita, por exemplo, às labaredas em “Highaway to Hell”, ao clássico sino de “Hells Bells” e aos canhões de “For Those About to Rock” – que até já detonaram mais alto. Contas feitas, é a combustão musical a partir dos riffs criados pelo saudoso guitarrista Malcolm Young (1953-2017) que fornece o brevê para a catarse.
Único, vá lá, “defeito” da apresentação: o longo solo de Angus Young em “Let There Be Rock”, que finaliza o show (antes do bis) com direito ao tradicional “esperneio” do guitarrista – no alto de uma plataforma e em meio a toneladas de papel picado colorido. Mais de dez minutos, com baixo e guitarra-ritmo tonitruantes em forte marcação sincopada. Mas Angus pode.
No bis, mais dois terremotos: “T.N.T.” e o já mencionado hino “For Those About to Rock”. “We salute you”, São Paulo”, despediu-se Brian Johnson – o AC/DC nunca faz a costumeira saudação final. Luzes acesas e não eram raros olhos marejados, gente ainda impactada. Pudera. E vem mais por aí.