Green Day esquenta Super Bowl LX sem polêmica, mas não sem censura

9 de fevereiro de 2026

No domingo de 8 de fevereiro de 2026, o Levi’s Stadium, em Santa Clara, viveu uma jornada histórica para a NFL. O Super Bowl LX selou o segundo título do Seattle Seahawks, que venceu o New England Patriots por 29 a 13 graças a uma defesa dominante e ao brilho do running back Kenneth Walker III, eleito o MVP da partida. Além do jogo e do show de Bad Bunny no intervalo, a festa também contou com um preâmbulo musical: o Green Day, ícone punk da Bay Area, abriu a cerimônia celebrando os 60 anos do Super Bowl diante de ex‑jogadores homenageados e milhares de torcedores.

Uma estreia com clássicos e um grito “Super Bowl 60”

A apresentação foi planejada como um recorte da trajetória do grupo. O set de aproximadamente seis minutos começou com violinistas entoando “Good Riddance (Time of Your Life)” enquanto MVPs de várias eras caminhavam pelo gramado. Na sequência, Billie Joe Armstrong (vocal e guitarra), Mike Dirnt (baixo) e Tré Cool (bateria) assumiram a canção e emendaram “Holiday”, “Boulevard of Broken Dreams” e “American Idiot”. A transição entre as músicas foi marcada por corações em forma de granada — imagem da capa de American Idiot — agitados pelo público, e Armstrong saudou a plateia com um grito: “Welcome to the Baaaaay! It’s Super Bowl 60!”.

A escolha das faixas não foi casual. O repertório representou dois momentos importantes da carreira: o sucesso radiofônico de “Good Riddance”, lançado em 1997, e o impacto cultural de American Idiot (2004), disco que satirizava a era George W. Bush. Tocá‑lo no maior evento esportivo dos Estados Unidos, em meio a tensões políticas crescentes, sugeria uma oportunidade de manifestação. Mas essa não foi a escolha da banda.

Silêncio estratégico no palco principal

Desde a campanha presidencial de Donald Trump, o Green Day costuma alterar trechos de “American Idiot” para disparar críticas diretas. Em shows recentes, Armstrong substituiu o verso “I’m not a part of a redneck agenda” por “I’m not part of the MAGA agenda” e adicionou comentários sobre Jeffrey Epstein. Na sexta‑feira anterior ao Super Bowl, durante uma festa fechada em San Francisco promovida pela Spotify e a plataforma de apostas FanDuel, o cantor mandou um recado explícito a agentes de imigração dos Estados Unidos: “Quit your sh**ty‑ass job… quando isso acabar, Kristi Noem, Stephen Miller, JD Vance e Donald Trump vão largar vocês como um hábito ruim”. No mesmo evento, ele usou a frase “representative from Epstein Island” em “Holiday” e cantou “I’m not part of the MAGA agenda” em “American Idiot”.

Diante desse histórico, parte do público esperava um protesto no intervalo oficial. Porém, durante a cerimônia de abertura do Super Bowl, a banda evitou fazer modificações políticas. O medley seguiu as letras originais, e o grupo suprimiu a segunda estrofe de “American Idiot”, justamente a parte que contém críticas mais incisivas. A única intervenção audível foi involuntária: quando Armstrong cantou a linha “the subliminal mind‑f**k America”, a transmissão da NBC silenciosamente cortou o áudio para censurar a palavra, um detalhe que gerou comentários nas redes.

Essa opção por não adaptar as letras contrastou com o tom inflamado do pré‑show e repercutiu entre fãs. Nas redes sociais, alguns lamentaram que o grupo “vendeu‑se” ao evitar slogans anti‑MAGA, enquanto outros lembraram que artistas que se apresentam no Super Bowl não recebem cachê — a NFL cobre apenas custos de produção — e podem enfrentar restrições de transmissão. Em entrevista anterior, Armstrong havia comemorado a chance de “abrir o Super Bowl 60 no quintal de casa” e de saudar veteranos do esporte, indicando que a banda enxergava a performance como celebração regional mais do que como palco de militância.

Rock, política e a vitrine da NFL

O episódio revela como a música e o ativismo navegam em ambientes corporativos. O Green Day construiu uma reputação de crítica social desde os anos 1990, mas no palco mais assistido da televisão americana optou por relembrar sucessos em vez de polemizar. Isso não significa que a banda tenha abdicado da contestação: a própria decisão de tocar “American Idiot” — uma canção que satiriza o conformismo midiático — em pleno Super Bowl já carrega ironia. Fora do ambiente controlado da NFL, eles continuam fazendo declarações contundentes, como demonstrado no show para convidados, onde denunciaram agentes de imigração e citaram o escândalo Epstein.

O contexto geral do evento reforçou essa tensão. O show do intervalo, protagonizado por Bad Bunny, levou reggaeton e cultura porto‑riquenha ao centro da NFL e tornou‑se o primeiro a ser apresentado majoritariamente em espanhol. A escolha irritou setores conservadores dos Estados Unidos, inclusive o ex‑presidente Donald Trump, que classificou a escalação de Bad Bunny e do próprio Green Day como “terríveis”. A reação à performance da banda revela como a expectativa de posicionamento político passou a fazer parte da experiência do público, sobretudo em eventos transmitidos para milhões de pessoas.

Ao final, o Green Day encerrou a abertura do Super Bowl LX com energia e nostalgia, enquanto os Seahawks levantavam o troféu Vince Lombardi poucas horas depois. A ausência de versos adaptados durante a transmissão não apaga a trajetória crítica da banda, mas evidencia as concessões exigidas por um palco global. O equilíbrio entre atitude punk e exposição mainstream continua sendo um desafio — e, como provou a festa de San Francisco, existem outras arenas em que o grupo segue disposto a desafiar o status quo.

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