Na carona de ‘Stranger Things’, o synthpop está de volta

5 de julho de 2022

Quando Kate Bush chegou ao topo das paradas britânicas — além de conquistar o primeiro lugar no Top 50 Global do Spotify —, com “Running up that hill”, uma música de 1985, foi uma surpresa. Na época em que foi lançada, a canção fez sucesso, mas ocupou no máximo o terceiro lugar como mais ouvida no Reino Unido. Como pode então, 37 anos depois, conquistar tanta atenção? O primeiro e mais óbvio motivo é por estar na trilha sonora da série “Stranger things”, a segunda da Netflix mais vista no mundo. Mas outro fator que pode ter contribuído para o retorno avassalador é o fato de a sonoridade oitentista estar muito presente no pop internacional atual, o que traz uma irresistível “sensação de familiaridade”, dizem especialistas.

Esta estética revisitada por nomes como Harry Styles, The Weeknd e Dua Lipa, que remete e transporta os ouvintes para a década de 1980, tem nome: synthpop. De maneira geral, o gênero se caracteriza por um ritmo dançante e pela presença marcante de sintetizadores. — O teclado no synthpop não é melódico, ele é um teclado que ataca, é dançante, violento, de criação de ambiência sonora. É uma base estética, originada na virada da disco music e que chega muito forte nos anos 1980 — diz Thiago Soares, professor e pesquisador de cultura pop da Universidade Federal de Pernambuco.

Muito usada na época, a estética foi deixada de lado pelo mainstream na década seguinte, e o que assumiu o protagonismo foi o grunge, com guitarras, baixos e baterias preenchendo os espaços sonoros. Até que, em 2020, The Weeknd repaginou o synthpop e lançou o hit “Blinding lights”. A música, pesada em sintetizadores, passou 90 semanas no Hot 100 Chart da Billboard.

— A cultura pop é uma cultura de reciclagem e de reorganização muito mais do que de inovação. Os artistas estão sempre em busca de elementos do passado que, combinados com outros do presente e novos instrumentais, geram algo novo. A gente pode pensar na consagração de “Blinding lights” como a música que agenda essa estética no pop atual e traz algo semelhante com “Take on me”, do A-ha! — avalia Thiago, que explica que a versão que faz sucesso hoje é uma releitura da canção original.

Seguindo uma lógica parecida, Harry Styles lançou em maio um álbum cheio de referências ao passado. “As it was” é, provavelmente, o exemplo mais claro desse uso do teclado como protagonista e é justamente esta faixa que está em primeiro lugar nos charts.

No Brasil, este movimento retrô do pop ainda não chegou com força ao mainstream. Anitta, no entanto, usou referências ao synthpop no single “Boys don’t cry”. Entre artistas independentes, Letrux é quem chega mais perto da estética.

— O último disco dela (“Letrux aos prantos”), eu gravei com um sintetizador antigo, analógico mesmo — conta o tecladista e produtor Arthur Braganti. — O sintetizador tem uma coisa de atmosfera, ele constrói paisagens sonoras. Muita gente pode pensar que “parece uma coisa celestial” ou “um grave de bruxaria”, dá para criar percepções até meio poéticas. No fundo, o synthpop dos anos 1980 criou uma forma de usar esse recurso que se repete.

Mistura com piseiro

Para Arthur, é mais fácil identificar essas sonoridades em artistas como Letrux porque não há muita mistura de gêneros. Fato que difere seu trabalho do de Duda Beat, por exemplo, que, juntamente com os produtores Lux & Tróia, também usa o synthpop oitentista, mas misturado a elementos de brasilidade como piseiro ou maracatu.

— É uma estética do arranjo como um todo que aponta para esse lugar do synthpop, que ficou muito icônica — opina o produtor Tomás Tróia. — Nas músicas da Duda, a gente usa o synthpop como ingrediente e não como prato principal. Acredito que fazer um projeto puramente de synthpop tem mais chance de ser uma coisa nichada. Mas, se você pega e faz um piseiro junto do synthpop, um pagodão com synthpop, aí eu acho que tem mais apelo no Brasil.

Fonte: Portal O Globo

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Artista: Neil Young
Música: Rockin' In The Free World
#Esse som é muito marcante pra mim porque foi o primeiro que rolou na minha programação.

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