O Beatle que sofreu com o temperamento de John Lennon
7 de janeiro de 2026
Reconhecido como um dos nomes centrais da história da música popular, John Lennon é lembrado tanto pelas composições fundamentais dos The Beatles quanto pelo ativismo político e pela defesa da paz. Entre pessoas próximas ao grupo, porém, Lennon também era conhecido por um temperamento difícil, marcado por ironia, sarcasmo e episódios de grosseria.
Esse lado mais áspero do músico atingiu de forma particular alguém que, ironicamente, esteve entre seus amigos mais próximos nos primeiros anos da banda: Stuart Sutcliffe, o primeiro baixista dos Beatles.
Stuart Sutcliffe e o início dos Beatles
Stuart Sutcliffe conheceu John Lennon ainda no período escolar e passou a integrar o grupo em janeiro de 1960, após adquirir um baixo praticamente por incentivo do próprio amigo. Embora tivesse limitações técnicas como instrumentista, Sutcliffe teve papel relevante na identidade inicial da banda e é frequentemente citado como um dos responsáveis pela escolha do nome “The Beatles”, inspirado em Buddy Holly and the Crickets.
Apesar da proximidade, relatos de amigos e biógrafos indicam que Sutcliffe era alvo constante de provocações e humilhações, especialmente por parte de Lennon. Em entrevista ao The Guardian, Bill Harry, amigo de John, descreveu o comportamento do músico: “Ele costumava tratar Stuart muito mal às vezes, humilhava-o na frente das pessoas. John tinha uma língua afiada, mas gostava de quem conseguia enfrentar isso.”
A implicância não partia apenas de Lennon. Paul McCartney e George Harrison também demonstravam resistência à presença de Sutcliffe, especialmente por sua forte ligação artística e intelectual com John.
Admiração misturada com rivalidade
Segundo o biógrafo Hunter Davies, autor da única biografia oficialmente autorizada dos Beatles, existia um misto de admiração e ciúme na relação entre Lennon e Sutcliffe. Davies escreveu que John frequentemente diminuía o amigo em público, mesmo reconhecendo sua influência estética e cultural.
Sutcliffe, que se destacava como pintor e intelectual, acabou deixando a banda em 1961 para se dedicar integralmente às artes visuais após conquistar uma bolsa de estudos na Universidade de Belas Artes de Hamburgo. Sua saída ocorreu antes do sucesso mundial dos Beatles.
A fotógrafa e artista Astrid Kirchherr, namorada de Stuart, também comentou a relação dos dois no livro Lennon: The Definitive Biography, de Ray Coleman: “John realmente amava Stuart, mas sempre precisava parecer o cara durão. Implicava com ele por qualquer coisa. Stuart aceitava tudo em silêncio.”
A morte de Sutcliffe e o peso da culpa
Stuart Sutcliffe morreu em 1962, aos 21 anos, em Hamburgo, vítima de um aneurisma cerebral. A morte precoce abalou profundamente John Lennon. Embora não demonstrasse publicamente seus sentimentos com facilidade, o músico carregou culpa e luto por anos.
Cynthia Lennon, primeira esposa de John, relatou no livro John que ele frequentemente refletia sobre a perda do amigo, questionando-se sobre a própria sobrevivência e sentindo dificuldade em expressar o sofrimento.
Mesmo sem homenagens explícitas, muitos estudiosos apontam que Sutcliffe foi lembrado simbolicamente por Lennon em versos de In My Life, canção lançada em 1965, que fala sobre amigos que partiram, memórias e afetos preservados ao longo do tempo.
A história entre John Lennon e Stuart Sutcliffe revela uma faceta menos idealizada dos Beatles: relações humanas complexas, atravessadas por ego, admiração, rivalidade e arrependimento. Um lembrete de que, por trás da maior banda da história, existiam conflitos tão intensos quanto a música que criaram.