Bem-vindo à selva: nova espécie de cobra é batizada em homenagem a Slash, do Guns N’ Roses
21 de agosto de 2026
Descoberta em Papua-Nova Guiné, a espécie Lielaphis slashi recebeu o nome do guitarrista por sua conhecida paixão por répteis, museus e história natural.
Crédito da Foto: Mat Hayward/Getty Images
Uma nova espécie de cobra foi batizada em homenagem a Slash, guitarrista do Guns N’ Roses, depois de pesquisadores identificarem características genéticas e morfológicas que a diferenciavam de outras espécies semelhantes encontradas na Nova Guiné. O animal recebeu o nome científico Lielaphis slashi, enquanto o nome comum em inglês é Slash’s groundsnake.
A descoberta tem uma ligação particularmente curiosa com a trajetória do músico. Slash é conhecido por seu interesse de longa data por serpentes e outros répteis, além de seu apoio a zoológicos e museus. Para Sara Ruane, pesquisadora do Field Museum e autora sênior do estudo, essa relação começou muito antes de sua carreira científica e acabou influenciando diretamente a escolha do nome da espécie.
A cobra de Slash estava na Nova Guiné desde 2006
A história da nova espécie de cobra batizada em homenagem a Slash começou muito antes de seu nome ser anunciado. Um exemplar de Lielaphis slashi foi encontrado em 2006, durante um trabalho de campo realizado por Chris Austin, herpetólogo da Louisiana State University, nas florestas da Nova Guiné. A espécie, porém, só foi reconhecida formalmente depois que os pesquisadores reuniram evidências suficientes para diferenciá-la de outras serpentes do mesmo gênero.
Com cerca de 71 centímetros de comprimento, a cobra tem coloração marrom-avermelhada e hábitos predominantemente noturnos. Essas características ajudam a explicar por que encontrá-la na natureza não é simples. Segundo Austin, as groundsnakes da Nova Guiné costumam aparecer pouco depois do pôr do sol, geralmente na base de árvores grandes enquanto procuram alimento.
“Essas groundsnakes da Nova Guiné são noturnas, então a melhor maneira de encontrá-las é à noite. Elas normalmente são encontradas logo depois do pôr do sol, na base de grandes árvores, onde procuram algo para comer”, explicou Austin.
O trabalho de campo exige atenção porque algumas espécies peçonhentas da região podem ter aparência semelhante às serpentes não peçonhentas. Como explicou o pesquisador, “há várias espécies altamente peçonhentas que se parecem muito com as groundsnakes não peçonhentas”.
A aparência de Lielaphis slashi também não era suficiente para determinar que se tratava de uma espécie inédita. No laboratório, os pesquisadores combinaram análises genéticas, características físicas e modelagem ecológica. As diferenças no número de escamas, somadas às evidências genéticas, mostraram que o animal era geneticamente distinto das espécies próximas.
“Usando múltiplas análises genéticas de ponta, descobrimos que L. slashi é geneticamente distinta de outras cobras semelhantes do mesmo gênero”, explicou Tianqi Huang, primeiro autor do estudo e pesquisador do Field Museum.
Segundo Huang, foi justamente a combinação das evidências que permitiu confirmar a descoberta: “A combinação de características físicas, como diferenças no número de escamas quando comparadas com outras espécies, e as evidências genéticas nos levaram a concluir que se tratava de uma espécie completamente nova”.
Foi uma revista sobre répteis que colocou Slash no caminho da homenagem
A escolha do nome não aconteceu por acaso. Sara Ruane, Associate Curator of Herpetology do Field Museum e autora sênior do estudo publicado em Zootaxa, era fã de Guns N’ Roses desde criança e decidiu seguir carreira na herpetologia ainda muito jovem.
A ligação com Slash surgiu quando Ruane tinha 12 anos. Na época, ela recebeu uma edição da Reptiles Magazine que trazia o guitarrista na capa segurando uma píton-reticulada.
“Guns N’ Roses é uma das minhas bandas favoritas desde a primeira série e, na quinta série, eu já tinha contado para minha professora que queria ser herpetóloga, uma cientista que estuda répteis, quando crescesse”, contou Ruane.
A revista teve um impacto particular na futura cientista. “Quando eu tinha 12 anos e recebi minha cópia da Reptiles Magazine, havia uma foto de Slash segurando sua píton-reticulada na capa. Eu pensei: ‘Esse cara é muito legal’”, lembrou.
Ruane também se identificou com o que o músico dizia sobre sua relação com os animais e com a ciência. Segundo ela, Slash falava na entrevista sobre seu interesse por “museus, zoológicos e história natural”, além de contar que, quando criança, costumava sair à procura de cobras.
Foi essa lembrança que voltou à cabeça da pesquisadora anos depois, quando surgiu a oportunidade de batizar uma nova espécie.
“Eu reli a entrevista dele e ele falou sobre o quanto ama museus, zoológicos e história natural, e sobre como, quando era criança, saía para procurar cobras. Era tudo algo com que eu me identificava muito, e isso me fez pensar que ele seria uma ótima pessoa para dar nome a uma nova espécie”, explicou Ruane.
Slash recebeu a homenagem com surpresa e emoção. “Como um apaixonado por répteis de longa data, estou extremamente honrado e humilde por ter Lielaphis slashi, da Nova Guiné, batizada em minha homenagem”, afirmou o guitarrista.
“É realmente emocionante. Eu nunca teria imaginado que esse momento chegaria”, acrescentou.
A cobra de Slash é venenosa?
Apesar do nome ligado a um dos guitarristas mais conhecidos do rock, Lielaphis slashi não é uma cobra peçonhenta capaz de causar danos graves a humanos.
Os pesquisadores acreditam que serpentes desse grupo podem usar os dentes localizados na parte posterior da boca para capturar pequenos lagartos e ovos de outros répteis. “As cobras desse gênero frequentemente têm dentes grandes na parte posterior da boca, que as groundsnakes da Nova Guiné podem usar para agarrar e comer pequenos lagartos de escamas lisas e escorregadias e os ovos de outros répteis”, explicou Ruane.
A estratégia, porém, é diferente da utilizada por uma jiboia. “Essa cobra não está agarrando e espremendo sua presa como uma jiboia”, esclareceu a pesquisadora.
Ainda há muito a descobrir sobre a espécie. As florestas da Nova Guiné, uma das regiões de maior biodiversidade do planeta, permanecem pouco estudadas em várias áreas. E o próprio habitat de Lielaphis slashi enfrenta pressão de atividades humanas, incluindo agricultura de café e mineração.
“O habitat de onde vem a Slash’s groundsnake está ameaçado por setores como a produção de café e a mineração”, alertou Ruane.
É justamente aí que a descoberta ganha uma dimensão maior. Identificar uma espécie não serve apenas para acrescentar um nome à lista da biodiversidade conhecida. Para Ruane, reconhecer formalmente esses animais é uma etapa necessária para entender os ecossistemas e pensar em sua preservação.
“Cada espécie precisa ser reconhecida para que possamos compreender melhor como os ecossistemas funcionam, como tudo se encaixa no ambiente”, afirmou. “Não podemos conservar animais ou outros seres vivos que não conhecemos.”
A cobra que recebeu o nome de Slash, portanto, representa uma descoberta científica que começou muitos anos antes de sua homenagem. E também mostra como uma antiga paixão de uma futura cientista por uma revista sobre répteis acabou se cruzando, décadas depois, com uma espécie que ainda guarda muitos de seus próprios segredos.