Pinhão RockFest promove seis dias de shows, em 4 cidades do Paraná e mais de 25 atrações
12 de maio de 2026
O Pinhão RockFest chega à segunda edição com a proposta de ir além de uma sequência de shows. Em 2026, o projeto se consolida como circuito itinerante, ocupando casas de show em quatro cidades do Paraná e reunindo bandas autorais, covers e tributos em torno do rock e suas vertentes. Com programação até sete de junho, ingressos acessíveis e mais de 25 atrações, o festival aposta na circulação como ferramenta de fortalecimento da cena independente.
Para entender os bastidores da curadoria, os desafios da produção independente e o papel do festival na construção de uma rede para o rock paranaense, conversamos com Kellen Volochati, uma das organizadoras do Pinhão RockFest.




ML – O Pinhão RockFest chega à segunda edição em formato ampliado. Em que momento vocês perceberam que ele poderia deixar de ser apenas um evento e virar um circuito?
A virada de chave veio quando eu, que havia me inscrito apenas como banda, fui convidada pelo Altair Lech, que é o fundador do Pinhão, pra ingressar junto a ele e uma equipe que fomos desenvolvendo.
Ele sempre fez eventos no município de Araucária; eu, Kellen, e meu esposo, Giovane Pilar, em Guarapuava e, posteriormente, Curitiba. Daí, com essa troca de experiências, acabamos expandindo cada vez mais o Pinhão.
A ideia sempre foi abrir espaços para bandas, para o giro econômico, para o turismo, para a arte num geral e, com isso, surgiu a necessidade de abranger cada vez mais casas e cidades do estado do Paraná. A ideia é inclusão, independentemente de estilo, de serem bandas autorais ou covers/tributos.
ML – O festival reúne bandas autorais, covers e tributos. Como foi o processo de seleção e como vocês equilibram esses três universos dentro da curadoria?
Não é uma tarefa fácil, até porque são muitas bandas inscritas, muitos estilos diferentes e muito talento que gostaríamos de dar espaço, mas, infelizmente, não temos como colocar todos que se inscrevem no palco.
Temos alguns critérios de seleção, como: inscrições completas, ser do Paraná, ter um material que consigamos avaliar, entre outros. Depois, temos a questão de analisar quantas bandas podemos colocar e quais, de acordo com o público, segmento e localização de cada casa.
São dias em que nossa equipe se aprofunda, ouve banda por banda, debate, cria critérios de desempate e, por fim, chega aos nomes escolhidos. E sempre de forma imparcial.
Todo ano tentamos mesclar, escolher bandas e casas novas, além de abrir espaço em outros eventos que a Pinhão Produções faz durante o ano, além de indicar para parceiros e casas o pessoal que não conseguimos incluir no festival.
ML – O Paraná tem muita banda produzindo, mas nem sempre essa produção chega ao público. Qual é o maior gargalo hoje: palco, divulgação, grana, público ou estrutura?
Paraná, Brasil, possui muitas bandas boas. Temos muitos talentos, infelizmente nem sempre conseguimos espaço para mostrar, e os fatores são os mais diversos.
Financeiro: o grande impasse do produtor hoje é conseguir arcar com os custos dos eventos, conseguir pagar bandas, locar espaço, conseguir investir em mídia. Sem o financeiro, você não consegue chegar tão longe, precisa vetar grande parte do que gostaria de ter em seu evento para agradar o público: parte visual, teatral, diferenciais. Sem o financeiro, grandes atrações se tornam inviáveis.
Nós, com nosso evento, atualmente temos viagens das quais estamos fazendo por conta. Alguns amigos, como pessoal de moto clube, nos ajudam com empréstimo de alguns itens, alimentação em sede, como é o caso do evento do dia 16 em Guarapuava. A casa não possui equipamento próprio, então nós fornecemos com muita luta. E para quê? Para levar o Pinhão mais longe, divulgar, incluir.
Mas não é só isso. O público: é muito difícil hoje tirar as pessoas de casa, e temos tantas opções de entretenimento que acaba dividindo. Por isso, a importância de criar diferenciais, mas parte deles voltamos ao problema da falta de apoio financeiro.
Muitos músicos desistem no meio do caminho, porque estúdio para ensaio é caro, equipamentos são caros, transporte é caro. E o trabalho do músico, além de exigir muito estudo e manutenção/aquisição de equipamentos, tempo, ainda exige cada vez mais possuir um visual, um visual mais teatral que componha o show, não só a própria imagem, mas de palco, do todo, o marketing. E, sem apoio financeiro, isso se torna inviável.
As casas de Curitiba possuem uma estrutura melhor atualmente, boa parte, mas, em metropolitanas, em casas espalhadas pelo Paraná, nem sempre. E, para não excluirmos esses locais, buscamos ajuda, como até citei acima.
Eu sou uma guarapuavana, o Altair Lech é um araucariense, o Giovane Pilar é um pinhãoense, Milene Batisti, da nossa equipe, é de Curitiba. Alguns exemplos internos que temos: essa mistura, inclusão de cidades, é relevante, e a capital é extremamente importante, mas as demais cidades também merecem nossa atenção. Existe público lá, muitas vezes sem opção, e é isso que queremos: abranger cada vez mais, conseguirmos levar o Pinhão para todo o Paraná e, quem sabe, outras regiões do Brasil futuramente.
ML – Como é a relação com as casas que recebem o circuito? Como é feita essa seleção e por que essas parcerias são fundamentais para manter a cena viva?
Somos músicos, além de organizadores de eventos, e, sendo assim, conhecemos algumas casas. Conseguimos retornos de locais por onde já passamos com nossas bandas, às vezes, de maneira mais simples do que onde ainda não tocamos, mas não é regra, pois muitas casas foram totalmente abertas à passagem do Pinhão e ainda nem conhecemos pessoalmente.
Os nomes surgem da cena, mas a abordagem é sempre a mesma: enviamos nosso projeto, o que precisamos, e as casas avaliam. Vamos ponderando o que cabe em cada uma. A cada evento, nós temos que nos adaptar, pois lá somos visitas, somos bem recebidos e temos que nos adaptar a eles também. É sempre uma via de mão dupla, precisa ser ou não funciona.
E essa parceria é extremamente importante. Este ano temos: Box n Roll, Belvedere, Anônima Pub, Estação 385, Vosgerau e Tork n Roll sediando o circuito. Sem esse espaço, seria impossível dar palco para quase 30 bandas que fazem parte desse circuito.
As bandas também nos ajudam demais, pois sabem que fazemos sem aporte financeiro, na base do “tem como me ajudar com isso, com aquilo”. Nós trazemos os eventos, buscamos as casas, mas, sem a ajuda das bandas participantes, isso não seria viável.
As casas estão abrindo suas portas sem cobrar aluguel, com sua equipe, algumas com equipamentos completos, mas todas com tudo o que é possível. São fundamentais para conseguirmos fazer do mês de maio e comecinho de junho meses cheios de rock e diversidade.
ML – O que ainda precisa mudar pra cena local parar de ser tratada como “alternativa” e passar a ser reconhecida como parte central da cultura do estado?
O olhar das pessoas, entendimento e ver que pode girar economia ali, que somos fundamentais para um município, que somos clientes, moradores, consumidores, profissionais de diversas áreas.
Precisamos que grandes empresas nos vejam dessa forma, que consigam enxergar que, ao patrocinar um evento como esse, o retorno vem, seja em marketing ampliado, seja na prospecção e captação de novos clientes, vendas diretas ou indiretas.
Somos um portfólio enorme para casas de shows, somos um portfólio para festas particulares.
Precisamos de apoio da comunidade também, dos diversos grupos que se intitulam como algum tipo de movimento de rock. A ideia é troca, seja de serviços, de clientes e a troca artística. É tudo um grande quebra-cabeças que, no momento em que vai se encaixando, vai tomando forma, vai movendo uma engrenagem em que ainda faltam muitas peças, e estamos movimentando como todo brasileiro criativo: com gambiarras do bem.
ML – Qual foi o maior desafio para transformar a edição 2026 em um circuito com várias datas e cidades?
Não foi, está sendo! Isso porque, até o final do circuito, sempre estamos resolvendo coisas, o tempo todo.
O maior desafio é financeiro, com certeza, logístico e ter estrutura psicológica para conseguir seguir em frente diante das mais diversas dificuldades.
Nossa equipe é formada, em sua maioria, por funcionários com carteira assinada em outras empresas. Somos todos CLT, como dizemos, e fazemos tudo isso no contraturno e sem incentivos monetários. O maior desafio é não desistir, é pegar na mão dos integrantes de bandas, de quem quer ajudar, e na mão um do outro e levar em frente.
ML – O que o público talvez não veja, mas deveria saber sobre o trabalho por trás de um circuito como esse?
Que trabalhamos arduamente para levar o melhor para vocês. Não temos ainda um retorno financeiro como organizadores, as bandas também não estão lucrando ainda com os shows, mas somos pessoas apaixonadas pelo que fazemos e precisamos da sua ajuda para continuar.
E qual é esse tipo de ajuda? Que o público compareça às casas nos dias de show, que dê uma chance para estilos novos, sejam de bandas autorais, covers ou tributos, mas que apoiem os músicos do nosso estado, que nos apoiem, nos deem a mão.
É importante que saibam que cada 20, 25 reais de ingresso — sim, é só isso o valor geralmente, na maioria dos eventos do circuito não passa de 25 reais — é revertido em cachê para as bandas.
Cada patrocínio é revertido em gasolina para viagem, em aluguel de algum equipamento, em algum custo com divulgação simples. Enfim, todo valor que entra, que você paga de entrada, é para manter vivo o circuito e todo evento underground que você vê em um flyer passando em suas redes, convidando para shows de sua cidade.
São meses de trabalho árduo, envolvendo muitos sonhos. Os músicos passam horas e horas compondo, tirando músicas, gastam muito com equipamentos.
E o ingresso custa sempre menos de 30 reais, para você ver todo o investimento de uma vida de uma pessoa, ou, no caso, de cinco ou seis no palco, para lhe agradar, para fazer de um momento um dia inesquecível, para transbordar o que mais amam fazer, repassando a você, público, para compartilharmos.
Será que é caro, ou difícil assim, destinar algumas horinhas do seu dia para apreciar o que é nosso? Do nosso estado, do nosso país?
Isso que precisamos ver e gostaria de deixar como reflexão para quem mais precisamos que nos apoie como organizadores, como músicos e para quem fazemos, de verdade, tudo isso: o público!