Brandon Flowers durante entrevista sobre o álbum Thrasher em 2026

Brandon Flowers revela por que Thrasher é seu álbum mais pessoal

19 de agosto de 2026

Em entrevista, o vocalista do The Killers fala sobre infância, violência familiar, influência do country, envelhecimento artístico e adianta os planos para um segundo álbum solo sobre a “epidemia da solidão”.

Crédito da Foto: Reprodução/Chris Phelps

Brandon Flowers passou anos contando histórias que pareciam pertencer a outras pessoas. Em Thrasher, porém, o vocalista do The Killers decidiu voltar para dentro da própria memória. O terceiro álbum solo do cantor revisita a infância em Nephi, Utah, recupera a música country que ouviu do pai e transforma experiências familiares que antes permaneciam fora de suas canções em matéria-prima para um disco mais íntimo.

Em entrevista à NME, Flowers explicou por que só agora se sente preparado para fazer esse movimento. “Eu acho que sou capaz disso agora. Não acho que fosse capaz como compositor nos primeiros anos. Sempre quis contar histórias e sempre contei histórias, mas não era bom nisso. Acho que isso é apenas uma evolução do meu ofício, e acho que finalmente estou pronto para fazer isso”, afirmou.

Thrasher chega em 21 de agosto pela Island Records, onze anos depois de The Desired Effect. Gravado em Nashville, o álbum aprofunda a aproximação de Flowers com a música country e dá continuidade à atmosfera iniciada por Pressure Machine, de The Killers, mas troca a perspectiva de uma cidade inteira pelo círculo mais íntimo do cantor.

O passado que Brandon Flowers finalmente conseguiu transformar em música

A mudança fundamental de Thrasher não está apenas nos instrumentos country ou na gravação em Nashville. Está naquilo que Flowers decidiu revelar.

Em Pressure Machine, o The Killers voltou à pequena cidade de Nephi, onde o cantor viveu parte da infância, para construir histórias sobre seus habitantes e sobre a realidade de uma comunidade distante da imagem grandiosa associada à banda. Em Thrasher, a câmera se aproxima ainda mais.

“Eu gostei tanto de fazer Pressure Machine que não queria sair daquele lugar”, explicou Flowers à NME. “Não achei que isso deveria ser um disco do The Killers, então fui ainda mais fundo. Enquanto Pressure Machine era centrado em Nephi, Utah, e todas aquelas histórias aconteciam dentro da cidade, este é ainda mais pessoal. Estou focando no meu círculo íntimo.”

É uma diferença importante. O que antes era observado à distância agora passa pelo próprio compositor.

Flowers contou que sempre carregou essas histórias, mas que não tinha, quando mais jovem, as ferramentas necessárias para colocá-las em palavras. A maturidade trouxe outra capacidade de olhar para o passado.

E esse passado tem lados que o cantor raramente havia exposto.

Flowers descreveu sua criação como parcialmente “rockwelliana”, marcada por pais que permaneceram juntos, igreja, jantares em família e momentos com o pai. Mas reconheceu que essa era apenas uma parte da história.

“Eu ainda tenho medo de falar sobre isso porque não quero manchar minha família”, disse. “Minha maneira de fazer isso é através das músicas. É difícil para mim explicar, mas havia abuso de drogas por perto, havia violência doméstica, havia brigas físicas. Eu cresci em meio a coisas assim. Essas são memórias que permanecem com você.”

A música se torna, portanto, uma espécie de espaço intermediário entre memória e exposição. Flowers não precisa transformar a própria infância em uma narrativa documental. Ele pode reorganizá-la dentro de personagens, imagens e canções.

Uma das faixas mais pessoais é Miss America, dedicada à irmã do cantor. Flowers mostrou a música a ela antes de decidir lançá-la.

“Eu acho que simplesmente tenho uma ótima memória. Carrego essas histórias comigo, e meu trabalho passou a ser contá-las. É uma grande responsabilidade”, afirmou. “Há uma música sobre minha irmã no disco chamada Miss America, e você não quer estragar isso. Quer fazer justiça à experiência dela.”

A preocupação não é apenas artística. É também familiar.

“Eu mostrei para ela, e, se ela tivesse odiado ou não quisesse que isso fosse divulgado, eu não teria lançado.”

A música country estava na vida de Flowers muito antes de Thrasher

A aproximação de Brandon Flowers com o country não nasceu com Thrasher. Ela estava presente em sua infância, nos carros da família e nas músicas que seu pai ouvia enquanto dirigia pelo interior de Utah.

Johnny Cash, Willie Nelson e John Conlee fizeram parte dessa primeira educação musical. A segunda veio de um irmão 12 anos mais velho, que apresentou a Flowers The Smiths, Depeche Mode, New Order, U2 e outros nomes da música britânica que acabariam ajudando a formar o som do The Killers.

Durante a adolescência, esses universos pareciam incompatíveis.

“Eu sempre gostei, mas sempre me sentia culpado”, lembrou Flowers. “Você não ouve Louder Than Bombs, do The Smiths, e depois ouve Willie Nelson. Quando você cresce, sente que precisa escolher. Eu escolhi corretamente para aquela época. Escolhi The Smiths em vez de Willie Nelson, mas, conforme você envelhece, percebe que há espaço para tudo isso.”

Essa percepção tardia ajuda a explicar Thrasher. A música country não aparece como uma tentativa de abandonar o passado musical do The Killers, mas como uma parte da formação de Flowers que demorou décadas para ocupar o centro de sua produção.

O cantor também relaciona o country à possibilidade de contar histórias com mais naturalidade.

“Há uma autenticidade nessa tradição, e ela depende da história. Estas são histórias americanas que estou contando, e é incrível como elas se encaixam nela com tanta facilidade”, afirmou. “Fiquei surpreso com o quão naturalmente isso veio para mim e com o quão natural pareceu. Eu simplesmente pensei: ‘Eu sei fazer isso’.”

A lembrança seguinte é quase doméstica: Flowers indo ao dentista com o pai enquanto ouvia aquela música.

É justamente esse tipo de memória que parece interessar ao cantor em Thrasher. Não necessariamente os grandes acontecimentos, mas os pequenos detalhes capazes de transportar uma pessoa para determinado período da vida.

Charlie McCoy, David Rawlings e uma banda que fez Flowers se sentir iniciante novamente

Gravado em Nashville, Thrasher reúne Flowers com os produtores Shawn Everett e Jonathan Rado, além de David Rawlings na guitarra, Bruce Bouton na pedal steel e Charlie McCoy na harmônica.

McCoy, aos 85 anos, carrega uma história particularmente extensa na música americana. O instrumentista participou das quatro gravações de Nashville de Bob Dylan, além de ter trabalhado com diversos nomes fundamentais da música popular dos Estados Unidos.

Para Flowers, estar ao lado desses músicos também significou abandonar temporariamente a segurança construída durante décadas de carreira.

“Eu estou meio envergonhado, mas vou admitir: não tinha noção do que estava prestes a encontrar”, contou à NME. “Eu tinha essas músicas prontas, já tinha sido atração principal no Glastonbury, já tinha lotado alguns estádios, mas, quando entrei naquela sala com esses caras, nada disso importava. Simplesmente desapareceu.”

O processo também mudou sua relação com as próprias gravações.

“Eu me apaixonei pelo processo deles”, afirmou.

Segundo Flowers, os dias começavam com cerca de 45 minutos de histórias contadas pelos músicos. Charlie McCoy podia falar sobre Leonard Cohen, Simon & Garfunkel, Bob Dylan ou Roy Orbison. Bruce Bouton, por sua vez, tinha uma maneira particular de responder musicalmente às letras.

Flowers também voltou a cantar ao vivo com os músicos durante as gravações, algo que não fazia desde Sam’s Town.

“Eu cantei melhor”, resumiu.

Em Miss America, segundo ele, não houve cortes para reconstruir a performance: “Sou eu e a banda tocando”.

O próximo álbum de Brandon Flowers terá outro assunto: a solidão

Thrasher é apenas a primeira metade de um projeto maior. Flowers revelou que já trabalha em um segundo álbum solo com a mesma banda de músicos.

A sonoridade deverá permanecer próxima do country, mas sem seguir tão diretamente o gênero. O cantor citou Tom Petty e os Travelling Wilburys como referências para esse segundo trabalho, que descreveu como mais “romântico”.

Mas a mudança mais importante será temática.

“Eu vejo isso como uma resposta à epidemia da solidão”, disse Flowers. “É um problema que estou percebendo, no qual estamos nos afastando uns dos outros. Essas coisas bonitas que nos tornam humanos estão se perdendo.”

A frase resume uma preocupação que aparece diversas vezes na entrevista à NME. Flowers observa essa transformação também dentro de casa, acompanhando o crescimento de seus três filhos adolescentes em uma época em que praticamente qualquer momento pode ser registrado por um celular.

Para ele, existe algo perdido quando crianças deixam de brincar espontaneamente porque sabem que alguém pode estar filmando.

“Todos os meus três filhos cresceram com isso. Sempre havia uma criança no grupo de amigos que faria isso se tivesse a chance. Essa perda é de partir o coração.”

Flowers tenta combater esse isolamento criando momentos fora das telas. Caminhadas, atividades ao ar livre e situações em que os filhos possam simplesmente estar presentes fazem parte dessa tentativa.

“É difícil ser otimista sobre o futuro agora. Parece que as coisas estão ficando mais estranhas e estamos nos isolando cada vez mais”, afirmou.

O segundo álbum, portanto, parece partir de uma pergunta diferente daquela que orienta Thrasher. Se o primeiro olha para as memórias que formaram Flowers, o próximo deve observar aquilo que ele acredita estar desaparecendo no presente.

Flowers quer envelhecer sem tentar ser jovem novamente

A idade também ocupa um lugar importante na maneira como Flowers pensa sua carreira.

Aos 45 anos, o vocalista não demonstra interesse em reproduzir indefinidamente a versão mais jovem de si mesmo. Para ele, envelhecer pode ser parte da própria linguagem artística.

“Você sente mais responsabilidade, e deveria sentir”, afirmou. “Eu só sinto gratidão por poder olhar para a minha vida. Independentemente de ter tido filhos ou não, penso: ‘O que a música me deu e o que vou devolver? Que marca vou deixar?’”

A resposta passa pela ideia de envelhecer com autenticidade.

“Eu quero envelhecer com elegância. Como artista, acho que existe uma maneira de fazer isso. Há algumas bandas que simplesmente não conseguem e tentam se agarrar ao passado. Você quer autenticidade. É isso que vocês estão recebendo de mim, e acho que isso deveria ser celebrado.”

Flowers cita John Lennon como referência. Em vez de tentar reproduzir eternamente os primeiros sucessos dos Beatles, Lennon continuou mudando a própria linguagem até o fim da vida.

Para Flowers, essa é uma das possibilidades de uma carreira longa: aceitar que o artista também muda.

“Essa outra trajetória que comecei a construir parece mais apropriada para a minha idade”, afirmou ao falar sobre o country. “Talvez eu consiga tocar Somebody Told Me.”

A brincadeira resume uma questão que atravessa Thrasher: Flowers não está tentando apagar o passado do The Killers, mas encontrar uma maneira de continuar sendo músico sem ficar preso a ele.

The Killers já trabalha em novo álbum, mas ainda não há um disco pronto

O trabalho solo não significa uma pausa definitiva para o The Killers. Segundo Flowers, a banda já voltou a escrever e produzir demos em Salt Lake City.

“Não está pronto”, explicou. “Mas os caras têm sido ótimos e compreensivos em vir para Salt Lake para escrever e começar a fazer demos.”

A formação completa está envolvida no processo. Ronnie Vannucci Jr. e Dave Keuning participam das sessões, enquanto Ariel Rechtshaid e Shawn Rado também trabalham com o grupo.

A rotina, porém, é diferente da de outras fases da banda. Flowers está em um momento da vida em que a família passou a ter peso maior nas decisões profissionais.

“Estou justamente nessa fase delicada em que quero jantar com minha família sempre que posso.”

O próximo disco do The Killers ainda não tem uma direção musical definida. Flowers sabe, entretanto, que a escala da banda precisa ser levada em consideração.

“Às vezes você esquece disso até tocar uma música diante de 50 mil pessoas e perceber que aquele não é o momento para ela”, afirmou. “Isso definitivamente está no fundo de nossas cabeças.”

A declaração coloca Thrasher e o futuro do The Killers em perspectivas diferentes. Enquanto a banda ainda precisa descobrir o que funciona para um público de arenas e grandes festivais, Flowers encontrou no trabalho solo espaço para diminuir a escala e aumentar o grau de intimidade.

É justamente aí que o novo álbum se torna mais revelador.

Thrasher não é simplesmente a incursão de um vocalista de rock pela música country. É o resultado de um compositor que, depois de duas décadas sob os holofotes, decidiu voltar a histórias que não conseguia contar quando era mais jovem.

“Eu acho que finalmente estou pronto para fazer isso”, disse Flowers.

O álbum chega em 21 de agosto de 2026 pela Island Records, antes de uma turnê solo pela América do Norte, Reino Unido e Irlanda a partir de setembro.

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