Izabella Rocha conversa com Gustavo Fonseca durante entrevista à Mundo Livre FM

Izabella Rocha defende o reggae como uma “revolução pacífica”: “Você pode ser uma pessoa mais pacífica, mas não passiva”

14 de agosto de 2026

Ex-Natiruts, em entrevista conduzida por Gustavo Fonseca, cantora fala à Mundo Livre FM sobre o poder transformador do reggae, o legado de uma das bandas mais importantes da música brasileira e a nova fase da carreira, que busca conquistar um público maior sem abandonar a espiritualidade, a conexão com a natureza e as mensagens positivas.

“O reggae é uma revolução pacífica.”

Para Izabella Rocha, o reggae está muito além de um gênero musical. É uma maneira de enxergar o mundo, uma atitude e, sobretudo, uma possibilidade de transformação. Depois de três décadas de carreira, a cantora vive uma nova fase com o projeto Izabella Vol. 1, dividido em três volumes, e busca resgatar seu público e conquistar novos ouvintes sem abandonar os princípios que acompanham sua trajetória desde os primeiros anos com o Nativus, posteriormente conhecido como Natiruts.

Em entrevista exclusiva à Mundo Livre FM, Izabella falou sobre a relação entre música e espiritualidade, relembrou a história que ajudou a construir com o Natiruts, contou como a maternidade e a conexão com a natureza influenciaram sua carreira solo e explicou por que o novo trabalho procura aproximar o reggae do pop e de outros gêneros.

Mais do que revisitar o passado, a cantora quer usar essa história como ponto de partida para encontrar novos ouvintes.

“A intenção é resgatar realmente o máximo de pessoas e conquistar um novo público também.”

“É uma revolução pacífica”

A definição de Izabella para o reggae resume boa parte da filosofia que atravessa sua trajetória. Para ela, o gênero não representa apenas uma sonoridade, mas uma cultura e uma maneira de se posicionar diante do mundo.

“O reggae é um estado de espírito. É uma cultura mesmo, assim. É um modo de enxergar o mundo, de se posicionar, de atitude.”

Essa visão ganhou ainda mais importância em um cenário marcado por conflitos, polarização e intolerância. A cantora associa o reggae à tradição de mensagens de paz e liberdade que encontrou em artistas como Bob Marley.

“É uma revolução pacífica, por assim dizer, porque a gente vive nesse mundo com tantas guerras e com essas polarizações, esse ódio.”

Para Izabella, a paz não significa ausência de posicionamento. Pelo contrário: exige disposição para enfrentar as dificuldades.

“Você pode ser uma pessoa mais pacífica, mas não passiva.”

A frase sintetiza uma das ideias centrais de sua relação com o reggae. Sem abrir mão da paz, a cantora acredita que é preciso estar preparado para os conflitos e desafios que aparecem pelo caminho.

“Para você ser uma pessoa que semeia paz, você precisa estar preparado para a guerra, porque o mundo lá fora te convida a muitos desafios.”

“O reggae é remédio, é medicina”

Essa concepção também aparece na forma como Izabella entende o impacto da música sobre quem a escuta.

Ao longo da carreira, a cantora ouviu relatos de fãs que associaram suas músicas a momentos importantes de suas vidas. Um deles, contado durante a entrevista, ficou especialmente marcado: um admirador relatou que atravessava um período de dependência química e pensamentos suicidas e encontrou na música uma força para sair daquela situação.

Para Izabella, histórias como essa revelam uma dimensão da música que vai além do entretenimento.

“A música realmente é um remédio.”

E, quando fala especificamente do reggae, ela vai ainda mais longe:

“Eu costumo dizer que o reggae é remédio, é medicina.”

Na visão da cantora, a música atua em diferentes dimensões da experiência humana.

“Ele trata a pessoa, trata a alma da pessoa também através da batida, das mensagens.”

Essa relação entre corpo, mente, alma e espírito também ajuda a explicar por que a espiritualidade ocupa espaço tão importante em sua produção artística.

A Izabella ainda deu uma palhinha pra gente de “Quero Ser Feliz Também”, sucesso do Natiruts!

“Eu vejo o Natiruts atravessando gerações com uma mensagem positiva”

Antes da carreira solo, Izabella participou da formação do Nativus e viveu com a banda uma das histórias mais marcantes do reggae brasileiro. Foram dez anos, cinco discos e a experiência de descobrir o palco e a própria identidade artística.

Hoje, olhando para aquele período, ela demonstra gratidão pela dimensão que o grupo alcançou.

“Eu me sinto muito grata por ter ajudado a construir isso, ter sido fundadora dessa banda.”

A relação com o público ganhou uma nova dimensão quando Izabella voltou a dividir o palco com a banda em 2022, durante a turnê Good Vibrations, anos depois de sua saída.

O reencontro mostrou que aquelas músicas continuavam vivas para diferentes gerações.

“Eu vejo o Natiruts atravessando gerações com uma mensagem positiva.”

A cantora lembra que, mesmo décadas depois do início da trajetória do grupo, o público continua se renovando.

“Nessa turnê de despedida que houve agora, tinha adolescente, tinha idoso, todo mundo ali cantando as músicas.”

Para Izabella, essa permanência é um dos maiores presentes de sua trajetória.

“Eu sou muito grata por isso porque eu vejo o Natiruts atravessando gerações com uma mensagem positiva.”

O legado como ponto de partida, não como limite

O vínculo com o passado continua presente na nova fase. Algumas músicas daquela época voltaram a aparecer em seu repertório, atendendo ao desejo de um público que permanece próximo.

“Agora eu tenho resgatado isso também nesse trabalho, trazendo músicas da época, algumas como um bônus, porque as pessoas amam.”

Mas a cantora não quer que sua carreira seja definida apenas pela história que construiu com o Natiruts.

Aos 30 anos de trajetória, o projeto Izabella representa justamente a possibilidade de reunir experiências diferentes e apresentar uma identidade mais ampla.

“É o meu reggae pop, que também transita pela bossa, pelo rock”

O primeiro volume do projeto marca uma tentativa clara de ampliar as fronteiras de sua música.

A faixa “Solta pelo Mundo” nasceu do desejo de explorar novas culturas e levar a mensagem positiva do reggae para outros públicos. A música também ganhou uma versão em espanhol, aproximando a cantora da América Latina.

“Essa música surgiu com a vontade mesmo de explorar novas culturas, de levar essa positividade do reggae pelo mundo e romper fronteiras.”

A escolha do espanhol não acontece por acaso. Izabella vê a América Latina como um espaço cultural próximo, mas ainda cheio de possibilidades de descoberta.

“Poder cantar nessa língua expande os horizontes, não só aqui para a América Latina, mas também para outros continentes.”

Musicalmente, essa expansão também aparece na tentativa de conversar com pessoas que talvez não estejam dentro da tradicional bolha do reggae.

“O reggae rompe fronteiras, ele está em toda parte do mundo.”

E o projeto assume explicitamente uma sonoridade mais aberta:

“É o meu reggae pop, que também transita pela bossa, pelo rock.”

A estratégia é aproximar a artista de novos ouvintes sem abandonar a essência que construiu sua trajetória.

“A intenção é resgatar realmente o máximo de pessoas e conquistar um novo público também.”

Espiritualidade como ferramenta de evolução

A conexão com o espiritual não aparece apenas nas letras ou na concepção do reggae. Ela também faz parte da vida cotidiana de Izabella.

A cantora estuda astrologia desde 2005 e considera a prática uma ferramenta de observação e autoconhecimento.

“Astrologia é uma ferramenta que me ajuda a evoluir também enquanto pessoa e também a me mostrar os caminhos, os melhores caminhos.”

Para ela, observar os astros também é uma maneira de recuperar uma conexão mais profunda com a natureza.

“As coisas acontecendo aqui na Terra e a gente vê que tudo está interligado. Existe uma unidade.”

Izabella ressalta que essa visão não significa abrir mão das próprias escolhas.

“A astrologia não determina, ela só inclina, porque o livre-arbítrio é soberano.”

Essa relação com a espiritualidade também chega ao processo criativo.

“É muito importante para mim. Me inspira bastante também para escrever.”

“A maternidade, o feminino e a natureza são exemplos do mesmo princípio”

A natureza e o feminino já ocupavam espaço central na carreira solo de Izabella antes do novo projeto.

Em 2016, a cantora lançou Gaia, seu primeiro álbum solo. O disco nasceu em um período particularmente ligado à maternidade: Izabella havia acabado de ter sua terceira filha.

“Eu estava bem dentro dessa questão da maternidade, da natureza, do feminino.”

Naquele momento, esses temas se encontraram em sua composição.

“A maternidade, o feminino e a natureza são exemplos do mesmo princípio: o princípio da geração da vida, o princípio da manutenção da vida, do cuidado, da paz, da espiritualidade.”

Musicalmente, Gaia também representou uma liberdade para reunir referências que faziam parte de sua formação.

“Eu permiti esse meu primeiro álbum solo trazer todas as minhas referências de tudo que eu gostava.”

MPB, rock, jazz e bossa nova entraram no mesmo trabalho.

“Eu adoro o rock também, sou muito roqueira, o jazz, a bossa. Então falei: esse disco vai ser um mix de tudo que eu gosto.”

Essa liberdade de experimentar acabou se tornando uma característica importante de sua trajetória solo.

“Se eu puder fazer a humanidade caminhar um milímetro para frente…”

Depois de 30 anos de carreira, Izabella parece menos interessada em escolher entre passado e futuro do que em fazer com que os dois caminhos convivam.

O legado do Natiruts continua presente. A espiritualidade permanece como referência. A natureza, a maternidade e o feminino seguem alimentando sua visão de mundo. Mas o novo projeto procura transformar tudo isso em uma linguagem capaz de alcançar outras pessoas.

No fim, a ambição artística de Izabella é menos sobre pertencer a uma determinada cena e mais sobre provocar algum tipo de movimento em quem escuta.

“A música é uma ferramenta de evolução pessoal. A música é remédio.”

E ela resume essa missão em uma das frases mais fortes da entrevista:

“Se eu puder fazer com que a humanidade e as pessoas caminhem um pouquinho para frente, um milímetro para frente, eu já estou sendo uma pessoa mais feliz.”

É esse princípio que orienta Izabella Vol.1, primeiro capítulo de um projeto dividido em três partes.

A cantora convida o público a conhecer uma versão mais ampla de sua música, sem abandonar aquilo que sempre esteve no centro de sua trajetória.

“Eu convido as pessoas a experimentarem. É o meu reggae pop, que também transita pela bossa, pelo rock, e para sentirem essa vibração, uma letra positiva e de caminhar um pouco para frente.”

Depois de ajudar a construir uma história que atravessou gerações, Izabella Rocha agora quer fazer essa mensagem chegar ainda mais longe.

“A minha missão enquanto pessoa é me tornar um ser humano melhor. Então a minha música também tem essa proposta de fazer com que as pessoas se sintam melhores.”

Confira a entrevista exclusiva com Izabella Rocha:

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