King Gizzard vira “cientista louco” para criar ‘Alien Metal’, seu disco mais eletrônico
14 de agosto de 2026
A banda australiana de rock psicodélico King Gizzard & the Lizard Wizard troca parte da lógica tradicional do rock por sintetizadores Eurorack e transforma o processo de criação em um verdadeiro laboratório sonoro.
Crédito da Foto: Reprodução/Instagram
King Gizzard & the Lizard Wizard decidiu trocar parte da habitual parede de guitarras por um laboratório de sintetizadores em Alien Metal, 28º álbum de estúdio da banda. Lançado nesta sexta-feira (14), o disco leva o grupo australiano mais fundo na música eletrônica, com faixas de alta velocidade construídas a partir de sintetizadores modulares Eurorack.
“Nós simplesmente estamos fazendo essa merd@ sozinhos, cara. Isso é uma coisa verdadeiramente de cientista louco, fazendo explosões na banheira.”
A mudança exigiu uma abordagem diferente até para uma banda acostumada a produzir em ritmo acelerado. Stu Mackenzie conta que o grupo passou cerca de dois anos trabalhando no disco e descartou mais material do que em qualquer outro álbum. No meio do processo, o músico resumiu a experiência como uma espécie de trabalho de “cientista louco”.
O King Gizzard já flertava com a eletrônica. Agora decidiu mergulhar de vez
O interesse do King Gizzard por sons eletrônicos não começou agora. A banda já havia explorado esse território em The Silver Cord, de 2023, além de projetos como Butterfly 3000, Butterfly 3001 e Made in Timeland. A diferença é que Alien Metal transforma essa experiência em um ponto central da identidade do disco.
“Existem certos paralelos entre muitas das coisas de heavy metal que fizemos e o techno, e também com algumas das coisas mais próximas do krautrock, hipnóticas e longas, que fizemos. Talvez exista um fio entre o King Gizz e a música de dança que não esteja tão distante assim.”
Para Mackenzie, havia uma questão importante durante a composição: como fazer música eletrônica sem simplesmente reproduzir a lógica de uma banda de rock utilizando equipamentos eletrônicos?
A resposta veio através do Eurorack, sistema de sintetizadores modulares que permite aos músicos construir os próprios sons a partir de diferentes módulos e conexões. O equipamento já vinha sendo usado pelo grupo nas chamadas “rave shows” desde o fim de 2024 e ganhou até um apelido: Nathan.
“Sinto que entendo música de uma maneira diferente, e certamente entendo voltagem de uma maneira diferente. E matemática, há muita matemática nessa coisa também, e um pouco de ciência.”
O desafio era particularmente complexo porque os seis integrantes precisavam improvisar juntos utilizando o sistema. Em vez de simplesmente transferir riffs de guitarra para sintetizadores, a banda passou a construir sons a partir de patches, voltagens e combinações de módulos.
O Eurorack fez Stu Mackenzie ouvir a música de outro jeito
A experiência com os sintetizadores também provocou uma mudança na relação de Mackenzie com o próprio processo de composição.
Segundo o músico, trabalhar com Eurorack o obrigou a pensar no som em uma escala mais elementar. Antes, sua atenção estava concentrada principalmente em elementos como notas, melodias e harmonias. Com o equipamento modular, passou a observar o som a partir de voltagem, frequência, conexões e comportamento físico dos sinais.
“Agora penso sobre o som de uma maneira que não pensava antes. Eu pensava sobre música, notas, melodia, harmonia e coisas assim. Mas isso força você a pensar nas coisas em um nível muito mais rudimentar, porque, no fim das contas, tudo o que essa coisa está fazendo é enviar voltagens para outras coisas. Você simplesmente precisa pensar em um nível mais atômico, mais celular, mais granular.”
A lógica também modificou sua percepção sobre instrumentos tradicionais. Ao construir do zero um som que se aproxime de uma linha de baixo, por exemplo, Mackenzie passou a valorizar ainda mais a resposta imediata de um baixo elétrico ou de uma guitarra acústica.
Essa troca entre instrumentos orgânicos e eletrônicos acabou funcionando nos dois sentidos. Enquanto o Eurorack levou o músico a enxergar a tecnologia de outra maneira, o processo também reforçou sua apreciação pela guitarra e por instrumentos acústicos.
O próprio sistema se tornou parte da estética do projeto. Cada integrante desenvolve seus próprios patches, criando configurações que podem ser compreendidas pelo músico que as construiu, mas que nem sempre são intuitivas para os demais. Para Mackenzie, os cabos e módulos expostos funcionam quase como uma representação visual do processo criativo de cada integrante.
A banda desacelerou, mas já prepara os próximos discos
O tempo investido em Alien Metal também revela uma mudança na maneira como o King Gizzard & the Lizard Wizard encara sua própria produtividade.
Durante os primeiros anos da carreira, o grupo chegou a lançar dois, três ou até cinco projetos em determinados períodos. Agora, Mackenzie admite que a banda diminuiu o ritmo de finalização dos discos e está mais disposta a deixar cada trabalho encontrar seu próprio tempo.
“Nós definitivamente diminuímos o ritmo de finalização dos discos. Se você tivesse me perguntado isso quando eu era mais jovem, na faixa dos vinte e poucos anos, provavelmente eu teria tido um pouco mais de fogo; eu era talvez mais desesperadamente ambicioso.”
A mudança, porém, não significa falta de material. O músico revelou que existem atualmente dois álbuns cerca de três quartos concluídos, embora não haja uma previsão definida para os lançamentos.
A agenda de shows também está mais enxuta em 2026. O grupo passou boa parte do ano concentrado na vida pessoal e na produção musical, em contraste com os períodos de turnês intensas que marcaram sua trajetória. A previsão é retomar um calendário de apresentações mais movimentado em 2027.
Antes disso, Alien Metal será apresentado no segundo Field of Vision, festival organizado pela própria banda nos arredores de Denver. O grupo também tem quatro apresentações marcadas em Nova York ainda em agosto.
Para uma banda acostumada a produzir em velocidade incomum, Alien Metal representa uma mudança de método tanto quanto de som. Ao trocar parte da lógica tradicional de uma banda de rock pela experimentação com sintetizadores modulares, o King Gizzard levou seu interesse por eletrônica, metal, psicodelia e música hipnótica para um território mais orientado ao ritmo. E, pelo relato de Stu Mackenzie, o laboratório continua aberto: há outros dois discos em produção enquanto a banda se prepara para retomar uma agenda de shows mais intensa.