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5 músicas de rock nascidas de histórias de terror

5 músicas de rock nascidas de histórias de terror

23 de outubro de 2026
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Um baixista acordou com um vulto ao pé da cama em 1969, e a banda dele fez dali a primeira faixa do disco de estreia. Que livro estava na estante?

Crédito da Foto: Reprodução/YouTube

Em 1982, discos do Iron Maiden viraram fogueira nos Estados Unidos, e o líder da banda respondeu que os acusadores não tinham lido as letras. Ninguém ali parecia interessado no que a banda tinha lido. Os Rolling Stones ouviam a mesma acusação, a de adorar o diabo, desde 1968.

A poucos dias do Halloween de 2026, a Mundo Livre FM reuniu cinco músicas de rock que vieram de um romance, de um livro de ocultismo, de um filme, de um conto de horror cósmico e de um livro de Stephen King. A ordem é cronológica, e o critério é um só: a inspiração foi contada por quem escreveu a música ou por quem estava na sala. No meio do caminho, um grito com duas versões e um escritor que desmente a própria lenda.

A corrente começa em 1968, com um romance russo que mudou de dono.

The Rolling Stones: “Sympathy for the Devil” (1968)

Inspiração confirmada pelo cantor em documentário de 2012 · gravada em junho de 1968

O livro chegou às mãos de Mick Jagger em 1968, entregue pela namorada, uma cantora. Era O Mestre e Margarida, em que o diabo desembarca em Moscou, e ela confirmou à revista Mojo, em 2005, que o romance inspirou a música. Jagger reconheceu a influência no documentário Crossfire Hurricane, de 2012, e, à Rolling Stone, em 1995, atribuiu parte da ideia a um poeta francês do século XIX: “foi tirado de uma ideia antiga de Baudelaire, acho, mas posso estar errado”. Na autobiografia da cantora, ele devorou o livro numa noite.

A música começou como uma canção folk, com os títulos provisórios “Fallen Angels” e “The Devil Is My Name”. Em 4 de junho de 1968, a banda foi gravá-la num estúdio de Londres, e o guitarrista sugeriu mudar o andamento e juntar percussão, o que a transformou num samba. O coro de “uh-uh” nasceu de um resmungo do produtor na cabine, que uma atriz presente na sessão notou e sugeriu usar.

Um cineasta francês filmava as sessões para um filme, e uma de suas lâmpadas provocou um incêndio no estúdio. O produtor salvou as fitas da música, e o cineasta continuou filmando. No dia seguinte ao início da gravação, um candidato à presidência dos Estados Unidos foi assassinado, e a letra, que perguntava quem matou John Kennedy, passou a lembrar também esse crime.

No ano seguinte, outro livro, outra noite e uma figura de preto ao pé da cama, desta vez em Birmingham.

Black Sabbath: “Black Sabbath” (1970)

Inspirada numa visão do baixista, contada por ele em entrevista · primeira faixa do disco de estreia, lançado em 13 de fevereiro de 1970

Segundo a banda, Geezer Butler, obcecado por ocultismo, pintou o apartamento de preto fosco e pendurou cruzes invertidas e fotos de Satã nas paredes. Ozzy Osbourne lhe deu um livro de ocultismo em latim, que Butler deixou na estante ao lado da cama. Numa noite de 1969, ele acordou com uma figura preta e grande ao pé da cama. A figura sumiu, e o livro também. Em 2016, Butler contou à Rolling Stone: “Acordei num mundo de sonho e havia uma coisa preta me encarando”.

Butler relatou o episódio a Ozzy e aos outros dois integrantes, e Ozzy escreveu a letra a partir do relato. A banda, de Aston, em Birmingham, tinha começado como Polka Tulk Blues Band e virado Earth, mas outro grupo britânico já usava esse nome. Em agosto de 1969, virou Black Sabbath, título de um filme de terror de 1963 com o ator que fez o monstro de Frankenstein, e a música ganhou o mesmo nome.

A gravação foi feita em 17 de novembro de 1969, em Londres. O riff nasceu quando Butler tocou um trecho de Marte, da suíte Os Planetas, e o guitarrista voltou no dia seguinte com o trítono, o “diabo na música” da tradição clássica. A faixa abre com o toque de um sino.

Em 2023, a Rolling Stone pôs a faixa em primeiro lugar numa lista das cem maiores músicas do metal. Doze anos depois do disco, o diabo voltou ao rock pela tela de um filme e por um pesadelo.

Iron Maiden: “The Number of the Beast” (1982)

Inspiração contada pelo autor da música, segundo a biografia oficial da banda · segundo single do disco homônimo, lançado em 26 de abril de 1982

Steve Harris, baixista e líder do Iron Maiden, viu a continuação de A Profecia, com o menino que seria o Anticristo, tarde da noite e teve um pesadelo. A música nasceu desse pesadelo e de um poema escocês do século XVIII, Tam o’ Shanter. A faixa abre com uma passagem do Apocalipse lida em voz grave.

Depois da leitura vem o grito do vocalista Bruce Dickinson, e a origem dele tem duas versões. Harris contou em 1983 que a ideia era arrancar um grito de gelar o sangue, como o que fecha uma música do The Who. Dickinson diz que o grito saiu da frustração com o produtor, que o fez repetir a introdução durante horas.

O mesmo produtor bateu o carro a caminho do estúdio, e a conta da oficina deu 666 libras. Segundo Harris, ele ficou tão assustado que exigiu que cobrassem 667.

Nos Estados Unidos, grupos religiosos acusaram a banda de satanismo, queimaram discos e protestaram durante a turnê de 1982. Harris reagiu: “Eles obviamente não tinham lido as letras”. O disco chegou ao primeiro lugar no Reino Unido, e no álbum seguinte o baterista gravou, em fita invertida, um recado a quem os chamava de adoradores do diabo.

A estante seguinte guardava outro tipo de assombração, um monstro que ninguém devia chamar pelo nome.

Metallica: “The Call of Ktulu” (1984)

Inspiração em Lovecraft, contada por quem estava na sala em 1983 · encerra o disco de 1984, Ride the Lightning

Em 1983, um guitarrista voou para Nova York para um teste no Metallica, que tinha acabado de demitir o seu guitarrista original. Dormiu num colchão de espuma, num prédio em Queens, ao lado do baixista Cliff Burton. Contou à Classic Rock, em 2023, o que Burton fazia ali: “ele estava lendo um livro de Dungeons & Dragons, The Call of Cthulhu”. O título é o de um conto de 1928 de H.P. Lovecraft, e é dele que a música tira o nome.

A música tinha começado a ser escrita antes, com o título “When Hell Freezes Over”, e o guitarrista demitido ainda assina a composição, ao lado de três integrantes da banda. Ele saiu antes da gravação, mas o nome continua nos créditos.

O resultado é uma instrumental de cerca de nove minutos, e o monstro de Lovecraft chega só pelo título e pelo som. O baixo de Burton, com um timbre sujo de distorção, entra pouco depois de um minuto, e a banda inteira só chega aos noventa segundos. O “k” do título alimentou a ideia de que a banda trocou a grafia para não invocar a criatura. A explicação mais simples, segundo o site Songfacts, é que Cthulhu é difícil de pronunciar e de escrever.

Dois anos depois, a banda voltou ao autor em The Thing That Should Not Be, desta vez com letra. O último livro desta lista chegou às mãos de quem o musicou por mais de um caminho, e um deles passa por um porão.

Ramones: “Pet Sematary” (1989)

Escrita para o filme de 1989, a partir do romance Cemitério Maldito, de Stephen King · single do disco Brain Drain, de 1989

Segundo o baterista dos Ramones, em livro de memórias de 2014, o escritor recebeu a banda em casa, em Bangor, no Maine, e entregou ao baixista Dee Dee Ramone um exemplar de Cemitério Maldito, o romance de 1983 que dá nome à música.

O escritor desmente. Em 2014, à Rolling Stone, King disse: “Eles nunca nem estiveram na minha casa”. A diretora do filme e o músico que escreveu a melodia com Dee Dee contam uma terceira cena. Ela tinha apostado que o baixista toparia fazer uma música para o filme, e ele topou. Cerca de cinco horas depois de receber o romance, Dee Dee ligou e deixou a letra na secretária eletrônica do parceiro, que escreveu a melodia naquela noite.

O produtor calcula que a música custou o dobro do primeiro disco dos Ramones. O clipe foi filmado à noite no cemitério de Sleepy Hollow, perto de Nova York, com a banda baixada a uma cova por um elevador que, segundo o diretor, quase caiu com todo mundo dentro. A canção, que tocou muito no rádio, levou ainda uma indicação ao Framboesa de Ouro de pior canção original.

Das cinco histórias, a do porão é a que ficou sem desfecho. O baterista conta o porão, o escritor garante que a banda nunca pisou na casa dele e quem escreveu a melodia lembra de uma letra deixada numa secretária eletrônica. Uma lenda de terror, afinal, vive de uma versão que ninguém consegue provar.

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