Em um bate-papo exclusivo com a Mundo Livre FM, feito por Gustavo Fonseca, a banda curitibana Capim Limão contou os bastidores de Do Outro Lado da Avenida, falou sobre o processo de construção da nova sonoridade, a parceria com a Jovem Dionísio, a relação com Curitiba e como deixou para trás o romantismo do primeiro álbum para explorar temas mais abrangentes nesta nova fase.
A Capim Limão começou em Curitiba, em 2020, reunindo referências diferentes e uma composição muito ligada às relações, ao amor e aos sentimentos. Depois de Todo Azul (2023), o trio formado por Thito, Júlio e JP decidiu ampliar esse campo de visão.
Em Do Outro Lado da Avenida, segundo álbum da banda, entram a cidade, o meio ambiente, a passagem do tempo e outras questões da vida cotidiana. A mudança também aparece na forma de fazer as músicas. O grupo deixou para trás parte do processo em que as ideias eram desenvolvidas no computador e passou a construir os arranjos mais diretamente entre os próprios instrumentos.
O título do disco nasceu dessa busca. Para a Capim Limão, atravessar “a avenida” também representa chegar a um lugar que a banda procurava havia algum tempo, um som mais próximo da experiência de tocar como grupo.

O som estava do outro lado da avenida
“Do Outro Lado da Avenida” também é o nome de uma das faixas do disco, mas a expressão acabou representando mais do que isso durante a produção.
A banda queria um trabalho mais orgânico e mais analógico. Isso não significou abandonar os sintetizadores ou outros recursos eletrônicos, mas procurar os timbres nos próprios instrumentos e fazer com que o resultado pudesse existir também no palco.
A gente quis trazer ainda mais a parte orgânica. Então, esse disco é uma busca por um som bem de banda, bem orgânico, bem analógico. Até então, a gente vinha de outro background de produção, a gente produzia de outro jeito.
Nesse processo desse disco a gente conseguiu chegar nesse lugar de criar e produzir como banda mesmo, bem orgânico. Então, acho que esse nome tem esse motivo.
A mudança começou ainda na composição. No primeiro disco, muitas ideias partiam do violão ou do piano e depois eram levadas ao computador. Dessa vez, a proposta foi trabalhar os arranjos antes, tocar juntos e chegar à gravação com as músicas já pensadas para funcionar como banda.
A gente meio que aprendeu o caminho de como fazer as coisas que a gente quer, que antes a gente não tinha tanto. Talvez no primeiro disco a gente esbarrava mais em falta de recurso, não só em questão de dinheiro ou de músicos, como fazer, como arranjar, de onde vir.
A gente não tinha muita experiência como banda também. A gente vinha total de uma caseira, de fazer as músicas mais no computador. As composições eram eu e o Tito no violão, e a gente só passava aquilo meio que pro computador. A gente não chegava a tocar as músicas de fato, com a banda completa.
E aí esse segundo disco traz mais essa onda de vamos tocar juntos, vamos arranjar as paradas antes, chegar lá e gravar aquilo, ao invés de ter uma ideia no violão ou no piano, enfim, jogar pro PC e trabalhar em cima daquilo.
A procura por esse som também levou o grupo a explorar os equipamentos disponíveis no estúdio do produtor Gustavo Schirmer. Entraram sintetizadores analógicos, guitarras, pedais, amplificadores e bateria.
A gente usou muito sintetizador no disco, mas acho que a gente pirou até pela influência do Schimmer, que é o produtor que toca esse synth. É de usar os synths analógicos, de caçar o timbre ali no próprio synth, na máquina.
A bateria recebeu um tratamento diferente em cada faixa, com mudanças na sala e na microfonação.
Cada música a gente adaptava a sala, adaptava os microfones, adaptava a batera pra aquela música. Não tinha uma coisa digital que você só vai testando ali no computador.
A escolha não surgiu de uma rejeição ao digital. Era uma vontade de experimentar uma forma de gravação próxima da experiência que os próprios músicos tiveram com os discos que ouviam quando eram mais novos.
Não é falando como se fosse qualquer demérito usar qualquer processamento digital. É só uma pira que a gente tava afim de fazer, na pira de fazer como os discos que a gente ouvia quando era criança e se permitir viver essa experiência.

O som da Capim Limão ainda está mudando
Mesmo depois de encontrar essa nova sonoridade, a banda não trata Do Outro Lado da Avenida como uma fórmula definitiva.
As referências mudam junto com os integrantes. O que eles escutam durante a produção também interfere no resultado, fazendo com que cada álbum registre uma fase específica da banda.
Eu concordo contigo que a gente conseguiu evoluir nessa questão de achar nosso som, mas também tem um lado que a gente muda muito as nossas perspectivas, o que a gente tá ouvindo e gosta durante o período de fazer um álbum.
No outro disco a gente tava com umas outras referências, nesse a gente tá com outras. Então acho que a gente vai mudando muito também ao longo dos anos nisso.
Eu não diria que a gente achou o som definitivo da banda, mas talvez a gente tenha achado o som da banda pra esse momento.
A mudança também tem relação com a experiência acumulada desde Todo Azul. No primeiro álbum, a banda ainda estava aprendendo a transformar ideias em arranjos e fazer essas músicas funcionarem de fato quando todos tocavam juntos.
Agora, o processo começa mais perto da banda.
Não quer dizer que vai ser esse tipo de som pra sempre, mas era o que a gente queria chegar nesse momento que a gente até então não tinha chegado.

O fim do mundo, mas com groove
A mudança de processo veio acompanhada de uma mudança nas letras.
Todo Azul tinha uma presença maior das relações amorosas. Em Do Outro Lado da Avenida, a Capim Limão decidiu procurar outros assuntos e sair um pouco desse território conhecido.
O amor continua aparecendo, mas a banda percebeu que também precisava olhar para outras coisas.
Tem muito também uma urgência de você conseguir abordar novos temas. Você entra num comodismo de falar de amor em certos momentos, então é uma forma da gente se desafiar e falar de novas coisas também.
A própria banda enxerga uma diferença entre os dois discos. Se Todo Azul tinha uma atmosfera mais ligada a uma vontade de fugir da cidade, o novo álbum se aproxima justamente dela.
A gente fez um primeiro disco que tinha uma onda meio querendo fugir da cidade, uma vibe meio praiana no disco. E daí a nossa ideia para o segundo disco foi ser um disco mais urbano, mais com a nossa cara.
“O Fim do Planeta Azul”, faixa que abre o álbum, leva essa mudança para outro lugar. A música imagina um possível colapso ambiental e tenta pensar no futuro da humanidade depois do fim das condições de vida na Terra.
O Fim do Planeta Azul é justamente uma divagação sobre como seria um apocalipse ambiental e tal. Qual que é o futuro da raça humana na Terra, para onde vai? Quando acabar aqui a gente vai para outro planeta? Vai ser uma chuva que vai levar a gente? Vai virar tudo poeira? A gente não vai mais conseguir plantar? Vai ter que ir para outro lugar?
A escolha da faixa para abrir o disco, porém, não aconteceu somente pela temática.
Começar com o Fim do Planeta Azul foi um pouco porque é uma música de punch, tanto de temática, que é uma temática um pouco mais diferente do que a gente já fez, mas como groove, como a música mesmo, essa questão de ser bem orgânica.
O resultado é uma combinação curiosa. A letra imagina o fim do planeta, enquanto a música mantém um groove energético e dançante.
Ela é bem energética, dançante, potente. Já que vai acabar o mundo, vamos pelo menos se divertir aqui e fazer o que a gente pode.
A conexão com Todo Azul apareceu depois, quando os próprios ouvintes perceberam uma possível relação entre “Planeta Para” e “O Fim do Planeta Azul”. Segundo a banda, essa leitura não estava planejada durante a produção.
O que existe entre os dois discos é também uma maneira parecida de observar a vida a partir de imagens aparentemente pequenas.
Durante a conversa, a banda retomou a ideia de “brinde à insignificância”, associada ao primeiro álbum, para explicar esse jeito de olhar para o cotidiano.
O brinde à insignificância é meio que isso, a beleza das coisas pequenas, de tudo aquilo que é ordinário. Acho que é um jeito de olhar pra vida que a gente carrega, tanto no jeito de ser, quanto no jeito de compor.
A grande beleza das coisas está no que a gente para pra prestar atenção.

Curitiba virou parte da história
Curitiba entrou diretamente no novo álbum com “Namorar Minha Cidade”.
A faixa nasceu de uma relação que mistura carinho, irritação e pertencimento. Um dos integrantes contou que vive em Curitiba há 28 anos e que passou por momentos em que queria sair da cidade, especialmente depois de experiências fora dela.
A música começou a ser feita no aniversário do músico e acabou reunindo essa sensação de passagem do tempo com o desejo de aproveitar melhor o lugar onde vive.
Foi uma música que eu comecei a fazer no meu aniversário. Ela interagiu com aquele lance de acordar na cidade, me sentir mais velho mesmo, e falar, pô, quero pegar um dia ensolarado e curtir essa cidade, porque eu amo ela e eu sei curtir essa cidade.
Curitiba não aparece como uma cidade idealizada. Há críticas ao clima, à sensação de cidade provinciana e à vontade de ir embora. Ainda assim, existe um vínculo que o integrante reconhece como parte de quem ele é.
Eu amo, eu sou criado aqui, acho que Curitiba é uma parte gigante de quem eu sou.
Depois de algum tempo pensando em sair, 2026 acabou trazendo uma reaproximação.
Acho que esse ano de 2026 é um ano que eu tenho me permitido amar mais Curitiba de novo.
A conversa também passou pela cena cultural da cidade. A banda lembra de períodos em que Curitiba tinha mais música ocupando as ruas e cita festivais, jazz, música eletrônica e outros circuitos que ajudavam a movimentar a cidade.
Hoje, os integrantes sentem falta de mais oportunidades para as pessoas simplesmente ocuparem esses espaços e encontrarem música sem que tudo dependa do consumo dentro de uma casa de shows.
Tem bastante som bom pela cidade sendo tocado, mas você tem que pagar uma entrada, aí vai ter que pagar um negócio caro lá dentro. Não é nada democrático.
A crítica não parte da ideia de que faltam artistas. Para a banda, existe bastante produção acontecendo, mas ainda falta espaço para que ela chegue a um público mais amplo.
Eu acho que falta essa parada em Curitiba. Deveria ter mais, cara, um rolê que anima todo mundo.
Essa relação com a cidade também aparece em “Faço Parar de Chover”, parceria com a Jovem Dionisio.
A ligação entre os dois grupos começou muito antes da colaboração. Um dos integrantes da Capim Limão estudou com os músicos da Jovem Dionisio e acompanhou a trajetória deles desde os tempos de escola.
Desde essa época eu conheço eles. E, pô, é muito massa ver que a gente tá nessa mesma jornada e que hoje a gente é amigo, a gente dá rolê junto.
A música acabou registrando essa proximidade.
Essa música é a concretização de uma parada. Acho que simboliza essa relação que a gente tá construindo mais do que qualquer coisa, de fazer parte do mesmo ecossistema.
A trajetória da Jovem Dionisio também serve como referência para a Capim Limão. Ver uma banda que nasceu em Curitiba encontrar público fora do eixo tradicional mostra aos integrantes que existe espaço para outros artistas da cidade construírem seus próprios caminhos.
É bom saber que tem uma galera fora do eixo, meio que da nossa cidade, fazendo um som até certo ponto parecido que conseguiu furar inúmeras bolhas, conseguiu viabilizar totalmente o negócio e virou uma banda de sucesso no Brasil, no mundo.
Desde Todo Azul, a Capim Limão vem ampliando seu repertório. O primeiro álbum concentrava boa parte das composições no amor e nas relações, enquanto Do Outro Lado da Avenida expande a escrita e também muda a forma de produzir. A banda passou a construir os arranjos mais diretamente entre os integrantes, buscou uma sonoridade mais orgânica e levou ao repertório temas como Curitiba, a vida urbana e o futuro do planeta.
O segundo disco registra o que mudou nesse intervalo. Em Todo Azul, os integrantes ainda buscavam maneiras de transformar suas ideias em um trabalho coletivo. Agora, chegaram a um processo mais próximo do que queriam fazer.
É justamente aí que o nome do álbum ganha sentido. Do Outro Lado da Avenida representa o lugar a que o grupo chegou a partir desse processo de descoberta, sem necessariamente significar um ponto definitivo para a sonoridade da banda. Como os próprios integrantes reconhecem, o som encontrado neste disco é, antes de tudo, o retrato da Capim Limão nesta fase da carreira.

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