Os Stones tiraram o nome da banda de uma música de Muddy Waters e foram conhecê-lo só em 1964. No Dia do Professor, a Mundo Livre homenageia os mestres do rock.
Em junho de 1964, os Rolling Stones entraram na Chess Records, em Chicago, e deram de cara com um homem de macacão numa escada, a tinta branca escorrendo pelo rosto. Era Muddy Waters, conta Keith Richards, e ele pintava o teto. A banda tinha tirado o nome de uma música dele, e agora o mestre a recebia de pincel na mão. No olhar do homem da escada, segundo Keith, vinha o recado: no ano que vem, quem pinta o teto são vocês.
Só que o filho do dono do selo nega a cena inteira. “Não há verdade nenhuma nisso.” Há ainda quem a coloque na fachada, e não no teto.
O que ninguém contesta é a dívida. Segundo a versão mais contada, Keith reencontrou Mick Jagger, colega dos tempos de escola, numa estação de trem de Dartford. Jagger levava debaixo do braço discos de Muddy Waters e de Chuck Berry, encomendados pelo correio a um selo de Chicago. Dali nasceu a vontade de montar uma banda. Em 1962, quando o promotor de um show pediu o nome do grupo por telefone, Brian Jones olhou em volta e viu um disco de Muddy Waters no chão. Uma das faixas era Rollin’ Stone. A banda tinha nome.
Quase todo grande nome do rock começou devendo a alguém. Os melhores fizeram questão de dizer a quem. Os Stones, por exemplo, pagaram a deles de mais de uma forma.
Do blues ao rock inglês
Muddy contou que os Stones repassaram royalties aos mestres, ao contrário de algumas bandas inglesas de blues. Ao apresentá-los numa das sessões, ele disse “Sou como um pai para eles.” Em 1981, num clube de Chicago, os Stones assistiam da plateia a um show de Muddy até ele chamar Mick Jagger ao palco. Keith e outros companheiros de banda subiram em seguida, e o guitarrista Buddy Guy também tocou naquela noite.
Com Chuck Berry a conversa foi mais barulhenta. O primeiro single dos Stones foi uma regravação de Come On, de Berry, e Keith confessou ao apresentá-lo no Hall da Fama do Rock, em 1986, “É difícil falar de Chuck Berry porque copiei cada frase que ele tocou.”
John Lennon, dos Beatles, foi ainda mais direto. Em 1972, num programa de TV americano, disse que o rock bem poderia se chamar Chuck Berry. O discípulo, aliás, copiou a ponto de ser processado: Come Together, de Lennon, ficou parecida demais com You Can’t Catch Me, de Berry, e um editor musical foi à Justiça. Mas e quando os alunos viraram mestres? Quem aprendeu com eles?
Manchester e Londres, por caminhos diferentes
Em Manchester, a resposta tem mais de um nome. Em 1995, Noel Gallagher disse que os Beatles são o começo e o fim para o Oasis. A banda que deu origem ao grupo se chamava The Rain, nome de um lado B dos Beatles de 1966. Mas foi outro grupo que lhe mostrou como tocar. Noel viu os Smiths em 1983 e concluiu “É assim que quero tocar guitarra.”
Depois viu o guitarrista dos Stone Roses cruzar esse jeito de tocar com o de Paul Weller e o de Lennon, e decidiu que era assim que queria soar. A fila de professores do Oasis tem mais de um nome, e foi com o mais próximo deles que Noel aprendeu a tocar.
Em Londres, o bastão veio de Nova York. O primeiro disco dos Ramones saiu nos Estados Unidos em abril de 1976, e a banda cruzou o Atlântico em julho. Conta a lenda que o Sex Pistols e o The Clash estavam na plateia do show no Roundhouse, em 4 de julho. Não estavam: tocavam em Sheffield, no norte da Inglaterra, e aquele era o primeiro show do The Clash. Os dois apareceram na noite seguinte, num clube menor, e é dessas duas noites que se costuma datar o começo do punk inglês. O empresário dos Ramones lembra as duas noites cheias de futuros punks, e as fontes divergem sobre quem foi a cada uma.
Anos depois, no documentário sobre os Ramones, o cantor do The Clash, Joe Strummer, resumiu “Sem aquele primeiro disco dos Ramones, não sei se teríamos construído uma cena aqui.”
Uma banda do heavy metal e um pedido ao Brasil
O professor mais heavy metal veio de Birmingham. O Black Sabbath, formado em 1968, passou anos tratado como uma banda de segunda, segundo o baixista, e foi pego de surpresa quando as bandas novas começaram a citá-lo. Kurt Cobain, do Nirvana, contou que ouviu o lado mais pesado do Sabbath, o que não tocava no rádio nem em Aberdeen, a cidade onde cresceu, e virou fã na hora. Em 1991, disse à revista Option “Não posso negar o Black Sabbath.”
O pedido mais inesperado de Cobain foi para o Brasil. Em 1993, ele escreveu a Arnaldo Baptista pedindo a volta dos Mutantes, a banda que Rita Lee, Arnaldo e o irmão dele tinham formado em São Paulo, em 1966, inspirados nos Beatles. Um dos fundadores contou depois que os jovens paulistanos da época ouviam tudo o que alcançavam, dos Beatles ao jazz. Cobain, por sua vez, contou que desde o primeiro disco dos Beatles que ouviu quis tocar bateria e ter “a adoração de John Lennon e o anonimato de Ringo Starr.” Os dois aprenderam com o mesmo mestre, e um dos alunos foi atrás do outro.
O grupo só voltou aos palcos em 2006, em Londres, treze anos depois da carta.
Foi Noel Gallagher quem resumiu a corrente toda, na estreia do documentário The Beatles: Get Back, ao falar dos Beatles.
Eles influenciaram todo mundo que influenciou todo mundo.
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