Metallica durante a era do Black Album em 1991

Metallica comemora 35 anos do “Black Album”, o disco que transformou o metal em um fenômeno global

12 de agosto de 2026

Lançado em 1991, o quinto álbum do Metallica marcou uma mudança radical na sonoridade da banda e se tornou um dos discos mais influentes da história do heavy metal.

Crédito da Foto: Reprodução/Metallica

Há 35 anos, o Metallica lançou seu quinto álbum de estúdio, Metallica, conhecido mundialmente como The Black Album. O disco chegou às lojas em 12 de agosto de 1991 e representou uma das mudanças mais significativas já realizadas por uma grande banda de heavy metal: depois da complexidade de …And Justice for All, o grupo apostou em músicas mais curtas, riffs mais simples, maior peso e uma produção grandiosa.

A decisão inicialmente dividiu os fãs, mas o resultado colocou o Metallica em uma escala comercial inédita. O álbum estreou no topo da Billboard 200, venceu o Grammy de Melhor Performance de Metal e transformou músicas como Enter Sandman, Sad but True, The Unforgiven, Wherever I May Roam e Nothing Else Matters em clássicos que ultrapassaram as fronteiras do gênero. Segundo números divulgados pela própria banda, o disco já ultrapassou 35 milhões de cópias vendidas mundialmente.

O que mudou no Metallica com o “Black Album”

A principal característica do Black Album não foi simplesmente deixar o thrash metal de lado. O Metallica mudou a maneira como construía suas músicas.

Depois dos arranjos extensos e das estruturas progressivas de …And Justice for All, a banda passou a priorizar groove, dinâmica, riffs marcantes e refrões mais diretos. A velocidade deixou de ser o principal elemento responsável pelo peso. Em seu lugar entraram espaço, precisão e uma produção extremamente poderosa.

A mudança também teve relação direta com Bob Rock, produtor que havia trabalhado com nomes como Mötley Crüe, Bon Jovi, The Cult e Loverboy. O interesse do Metallica não estava necessariamente na sonoridade dessas bandas, mas na capacidade de Rock de produzir discos com uma dimensão sonora que se aproximava da força das apresentações ao vivo.

As sessões duraram aproximadamente oito meses no One on One Recording Studios, em Los Angeles, e foram marcadas por exigências que a banda não estava acostumada a enfrentar. Rock pressionou James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e Jason Newsted a modificarem sua maneira de trabalhar. Pela primeira vez, os músicos também registraram as bases tocando juntos no estúdio, em vez de construírem as partes rítmicas separadamente.

O resultado pode ser ouvido nas próprias guitarras. Sad but True, por exemplo, foi gravada em afinação D, enquanto The God That Failed utiliza E bemol. A mudança ajudou a ampliar a sensação de peso de riffs que já eram naturalmente densos.

“Enter Sandman” e a música que apresentou o novo Metallica

Enter Sandman foi a primeira composição desenvolvida pela banda quando começaram a trabalhar no novo álbum, em julho de 1990. O riff de Kirk Hammett tornou-se a base de uma música propositalmente mais curta, direta e orientada pelo groove.

A história da letra, porém, era inicialmente muito mais sombria. James Hetfield havia pensado em uma narrativa relacionada à morte súbita de um bebê. Bob Rock sugeriu que o vocalista abandonasse uma abordagem tão literal e tornasse a letra mais aberta, transformando o conceito em uma representação dos pesadelos de uma criança.

A faixa acabou se tornando o primeiro single do álbum e uma das músicas mais reconhecidas da carreira do Metallica. Sua estrutura sintetiza a transformação que a banda pretendia realizar: o riff continua pesado, mas a composição é suficientemente simples e imediata para alcançar um público muito maior.

O sucesso, entretanto, veio acompanhado da acusação de que a banda havia “se vendido”. Parte dos fãs que acompanhavam o grupo desde a cena thrash dos anos 1980 interpretou as músicas mais acessíveis, os videoclipes e a produção polida como uma perda da complexidade que caracterizava Ride the Lightning, Master of Puppets e …And Justice for All.

“Nothing Else Matters” revelou um lado que Hetfield não queria mostrar

Se Enter Sandman representou a nova eficiência do Metallica, Nothing Else Matters mostrou até onde a banda estava disposta a levar essa transformação.

James Hetfield escreveu a música originalmente de forma privada, enquanto conversava ao telefone com sua então namorada. Quando Lars Ulrich ouviu a demo, convenceu o vocalista de que aquela composição pessoal deveria entrar em um álbum do Metallica.

A vulnerabilidade da faixa deixava Hetfield particularmente inseguro. A inspiração vocal de músicas como Nothing Else Matters e The Unforgiven veio, em parte, de Chris Isaak e de sua interpretação de Wicked Game. Hetfield queria aprender a cantar com mais nuance, em vez de depender exclusivamente do vocal agressivo que havia marcado os discos anteriores.

Há ainda uma curiosidade importante na gravação. Apesar de Kirk Hammett aparecer no videoclipe e tocar a música ao vivo, ele não participou da gravação de guitarra do álbum. Hetfield executou tanto a introdução acústica quanto o solo de guitarra da versão de estúdio.

O receio de que os fãs rejeitassem a música também não se confirmou. Durante a audição gratuita do álbum para aproximadamente 10 mil pessoas no Madison Square Garden, em 3 de agosto de 1991, a reação positiva antecipou o lugar que Nothing Else Matters ocuparia posteriormente na carreira da banda.

O legado do “Black Album” 35 anos depois

O impacto comercial do disco foi apenas uma parte da história. O Black Album ajudou a alterar o próprio vocabulário do metal nos anos 1990 ao demonstrar que uma música poderia soar extremamente pesada sem depender de velocidade ou estruturas tecnicamente complexas.

A produção de Bob Rock, as guitarras sobrepostas de Hetfield, a bateria de Ulrich e a presença mais evidente das frequências graves passaram a servir de referência para inúmeras gravações de hard rock e metal. Ao mesmo tempo, músicas como Enter Sandman e Nothing Else Matters conseguiram escapar das fronteiras do gênero e alcançar o público geral.

A longevidade do álbum também ajuda a dimensionar sua importância. O Metallica registra mais de 35 milhões de cópias vendidas mundialmente, enquanto o disco acumulou mais de 550 semanas na Billboard 200. Em 2021, o projeto Metallica Blacklist reuniu mais de 50 artistas de diferentes gêneros reinterpretando as músicas do álbum.

O que em 1991 parecia uma mudança arriscada acabou se tornando o principal ponto de inflexão da carreira do Metallica. O Black Album preservou o peso da banda, mas mostrou que riffs gigantescos, letras sombrias e guitarras distorcidas poderiam coexistir com estruturas simples, rádio, grandes arenas e um público muito além do metal.

35 anos depois, essa continua sendo a principal razão pela qual o disco permanece tão relevante: o Metallica não precisou abandonar o peso para chegar ao grande público. A banda descobriu como tornar esse peso mais direto, compreensível e monumental.

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