Aos 72 anos, Alex Lifeson se perguntou: “Ainda consigo fazer isso?” antes da volta do Rush
18 de agosto de 2026
A preparação para a Fifty Something Tour levou Alex Lifeson, Geddy Lee e Anika Nilles ao limite, entre mudanças de hábitos, treinamento, recuperação vocal e a difícil tarefa de reconstruir o Rush sem Neil Peart.
Crédito da Foto: Reprodução/YouTube
A volta do Rush aos palcos exigiu uma preparação incomum até mesmo para uma banda conhecida pela complexidade de sua música. Depois de 11 anos longe das turnês, Alex Lifeson, Geddy Lee e a baterista Anika Nilles precisaram recuperar condicionamento, técnica e confiança para enfrentar novamente um repertório que está entre os mais exigentes do rock.
Aos 72 anos, Lifeson decidiu inclusive abandonar um hábito que o acompanhava havia décadas. Quatro meses antes do início da Fifty Something Tour, o guitarrista parou de fumar maconha após perceber que o consumo estava afetando sua concentração e sua maneira de tocar. “Isso está interferindo na maneira como meu cérebro deveria estar funcionando e no tipo de foco e disciplina que, de repente, eu realmente queria ter na minha vida”, explicou em entrevista à Rolling Stone.
A mudança pessoal de Lifeson é apenas uma parte do esforço que colocou o Rush novamente na estrada. A banda precisou reconstruir sua formação após a morte de Neil Peart, preparar mais de 40 músicas e encontrar uma maneira de reproduzir ao vivo um repertório criado ao longo de décadas. A resposta poderá ser vista de perto pelo público brasileiro em janeiro de 2027, quando a Fifty Something Tour terá seis apresentações no país, incluindo o show de Curitiba, em 22 de janeiro.
Aos 72 anos, Alex Lifeson percebeu que precisava mudar antes de voltar ao Rush
Lifeson não descreveu a decisão como uma tentativa de abandonar definitivamente um hábito antigo desde o primeiro dia. O guitarrista contou que começou fumando maconha aos 13 anos e que o consumo havia permanecido como uma presença frequente em sua vida, especialmente nas últimas duas décadas.
A preparação para o retorno do Rush mudou sua relação com o hábito. Durante os ensaios, Lifeson começou a perceber que, depois de fumar e pegar a guitarra, “não estava tocando muito bem”. Ao mesmo tempo, surgiram dúvidas sobre sua própria capacidade de enfrentar novamente a exigência física e musical da estrada.
“Eu comecei a ter esses sentimentos negativos sobre minha confiança e sobre o que estava à nossa frente”, contou. “Estamos no meio do processo. É tarde demais para abandonar esse navio que está atravessando o mar em alta velocidade.”
Foi nesse momento que o guitarrista concluiu que precisava fazer uma mudança. “Pensei: isso está interferindo na maneira como meu cérebro deveria estar funcionando, e no tipo de foco e disciplina que, de repente, eu realmente queria ter na minha vida.”
A reação foi imediata. Lifeson reuniu sua maconha, cachimbos, bongs e outros objetos relacionados ao consumo e colocou tudo em um saco de lixo. Até mesmo quando encontrou alguns cigarros pré-enrolados que pretendia guardar, voltou atrás.
“Eu pensei: Al, essa não é a ideia”, relatou.
Inicialmente, o objetivo era ficar uma semana sem fumar. Depois, um mês. Quando completou esse período, a experiência havia sido suficientemente positiva para que ele decidisse continuar.
“Cheguei a um mês e pensei: meu Deus, talvez eu deva tentar por dois anos, durante toda a turnê”, disse.
“Minha memória está muito melhor”: o que Lifeson diz ter mudado
A principal consequência relatada pelo guitarrista foi uma sensação de maior clareza mental. Lifeson afirmou que percebeu mudanças em tarefas cotidianas e na maneira como se relacionava com a própria música.
“Está tudo muito mais claro. Não procrastino mais como costumava. Minha memória está muito melhor”, afirmou.
Em outro momento da entrevista, resumiu a experiência de maneira ainda mais direta: “Foi realmente uma experiência positiva. Eu não esperava por isso, e estava torcendo para que não fosse.”
A declaração deve ser entendida como um relato pessoal de Lifeson sobre sua própria experiência, e não como uma conclusão médica sobre os efeitos da cannabis. O que interessa para a história do Rush é a relação que o músico estabeleceu entre o hábito e a preparação para a turnê.
A mudança também veio acompanhada de uma redução no consumo de álcool. Para Lifeson, o objetivo central era chegar à estrada em condições de enfrentar um repertório que exige precisão e resistência mesmo de músicos muito mais jovens.
A preparação tinha uma razão concreta. O Rush montou quatro setlists diferentes para a Fifty Something Tour, com mais de 40 músicas ensaiadas. O repertório inclui algumas das composições mais difíceis da carreira da banda.
Lifeson também decidiu abandonar amplificadores físicos tradicionais e utilizar emulações digitais cuidadosamente configuradas para reproduzir os timbres dos equipamentos usados originalmente nas gravações. A obsessão com os detalhes foi tamanha que o guitarrista continuou ajustando seus sons mesmo depois do início da excursão.
“Há sempre alguma coisa que quero deixar um pouco melhor”, explicou. “E eu gosto disso. Isso me mantém em movimento.”
A volta do Rush exigiu que Lifeson e Geddy Lee reconstruíssem a própria forma de tocar
A decisão de Lifeson faz mais sentido quando colocada dentro do tamanho do desafio que ele e Geddy Lee aceitaram.
O Rush encerrou sua última turnê em 2015. Quatro anos depois, em 2020, morreu Neil Peart, baterista e principal letrista da banda, vítima de câncer cerebral. Durante algum tempo, Lee e Lifeson consideraram que a história do grupo havia terminado.
Em 2024, Lifeson chegou a afirmar que não pretendia voltar à estrada. “Não há chance de conseguirmos um baterista e voltarmos para a estrada como o renascimento do Rush ou algo assim”, disse na época.
O guitarrista também havia comparado uma eventual volta a uma banda tributo. A declaração incomodou Lee, que agora revelou à Rolling Stone o quanto aquilo havia provocado uma reação entre os dois.
“São suas músicas, filho da put@! Não é uma banda tributo!”, respondeu Lee ao relembrar o episódio.
A mudança começou quando os dois voltaram a tocar juntos depois da morte de Peart. Aos poucos, aquilo que parecia uma possibilidade encerrada voltou a ganhar forma.
Para Lifeson, a diferença fundamental estava na própria identidade do projeto.
“Quando nos sentamos, isso não era sobre estar em uma banda tributo do Rush”, explicou. “Isso é sobre ser o Rush. Em uma de suas melhores formas. E isso era uma coisa completamente diferente.”
A decisão de retornar também exigiu que os dois músicos recuperassem capacidades que haviam diminuído depois de anos longe da estrada. Lee, hoje com 73 anos, voltou a treinar baixo regularmente e iniciou aulas de canto pela primeira vez em sua carreira profissional para recuperar notas agudas do repertório clássico do Rush.
O vocalista chegou a ouvir do professor Mitch Seekins que sua musculatura vocal estava muito fora de forma, mas havia uma boa notícia: as notas ainda estavam disponíveis.
“Eu pensei que estava em forma porque ia ao estúdio e tocava um dos meus milhares de baixos. Você pensa que está em forma. Não está”, explicou Lee. “Isso não é estar em forma para tocar. Isso não é estar em forma para fazer uma turnê.”
A preparação de Lifeson, portanto, fez parte de uma reconstrução muito maior. Os músicos precisaram recuperar resistência, precisão, técnica e confiança para executar um repertório que não ficou mais simples com o passar das décadas.
Anika Nilles ocupa o lugar de Neil Peart na turnê que chega a Curitiba
A outra grande questão do retorno era inevitável: quem poderia tocar bateria depois de Neil Peart?
A resposta foi Anika Nilles, baterista alemã de 43 anos que já havia trabalhado com Jeff Beck e conquistado reconhecimento por seu próprio trabalho. Ela tinha três décadas a menos que os novos companheiros de banda e enfrentou a tarefa de aprender um repertório em que a bateria de Peart está profundamente integrada às composições.
Nilles precisou alterar inclusive aspectos de sua técnica para reproduzir determinadas características do estilo do antigo baterista do Rush. Em Tom Sawyer, por exemplo, ela descobriu que sua maneira habitual de tocar hi-hat não produzia o resultado necessário.
“Eu tenho que tocar usando mais força muscular”, explicou.
A própria baterista resumiu sua abordagem de maneira simples: “Eu não tenho ego, então toco o que é necessário.”
Ainda assim, a intenção não é transformar Nilles em uma cópia de Peart. Ela reconhece que sua personalidade musical inevitavelmente aparece nas apresentações.
“Eu sou uma musicista também, com meu próprio caráter e meu próprio estilo, e isso aparece mesmo que eu não queira”, afirmou.
A recepção dos primeiros shows também diminuiu uma das maiores incertezas da volta. Segundo Lifeson, o público tem apoiado a nova baterista e torcido para que ela tenha sucesso.
Peart, por sua vez, permanece presente no espetáculo. O repertório inclui momentos explicitamente dedicados ao músico, enquanto sua imagem e sua voz aparecem durante a apresentação. Para Lee, manter essa presença era importante, mas sem transformar os shows em uma cerimônia fúnebre.
“Não queríamos que fosse fúnebre”, afirmou. “Queríamos que todos se lembrassem dele felizes e celebrassem a pessoa incrível que ele foi.”
Rush fará seis shows no Brasil em 2027, incluindo Curitiba
A Fifty Something Tour chega à América do Sul em janeiro de 2027, depois da etapa norte-americana realizada em 2026. O Brasil receberá seis apresentações.
O primeiro show será em Curitiba, em 22 de janeiro, na Arena da Baixada. Depois, a banda segue para São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.
A formação atual reúne Geddy Lee, Alex Lifeson, Anika Nilles e o tecladista Loren Gold. A excursão marca a primeira série de shows do Rush desde o encerramento da turnê de 2015.
Para Lifeson, voltar à estrada aos 72 anos também significou enfrentar uma dúvida muito mais simples e pessoal: se ainda conseguiria fazer aquilo no nível que considerava necessário.
“Nas últimas semanas de ensaios, havia momentos em que eu ficava sentado na beira da cama às duas da manhã pensando: tomei a decisão certa? Eu consigo fazer isso? Eu consigo tocar? Eu sou bom o suficiente?”
A resposta veio no primeiro show.
“Foi naquele momento que pensei: sim, tudo isso valeu a pena. É aqui que eu realmente estou feliz.”
O show de Curitiba, portanto, será parte de uma turnê que nasceu de uma sequência improvável de decisões: dois músicos septuagenários voltando a ensaiar depois de anos afastados, uma nova baterista assumindo o lugar de um dos maiores nomes da história do instrumento e Lifeson mudando um hábito que o acompanhava desde a adolescência para chegar ao palco preparado.
A própria frase do guitarrista resume a dimensão pessoal desse retorno: “Isso é sobre ser o Rush. Em uma de suas melhores formas.”