Dolly Parton entrou no Rock & Roll Hall of Fame e respondeu com um álbum de rock ao lado de lendas
26 de agosto de 2026
A cantora inicialmente questionou se merecia estar no Rock Hall; um ano depois, lançou Rockstar cercada por nomes que ajudaram a escrever a história do rock.
Dolly Parton morreu nesta terça-feira (25), aos 80 anos, deixando uma carreira que ultrapassou as fronteiras do country muito antes de sua aproximação mais explícita com o rock. A cantora foi indicada e entrou para o Rock & Roll Hall of Fame em 2022, depois de inicialmente questionar se realmente pertencia àquele universo.
A resposta veio um ano depois: Rockstar, seu primeiro álbum dedicado ao rock, lançado em 2023 com 30 faixas e uma lista de convidados que parece uma pequena enciclopédia do gênero.
A dúvida sobre o Rock Hall virou combustível para Dolly Parton
Quando foi indicada ao Rock & Roll Hall of Fame, Dolly Parton chegou a dizer que não se considerava uma artista de rock. A reação fazia sentido dentro da própria trajetória: ela construiu sua reputação a partir do country, do bluegrass e do gospel, gêneros ligados à música de raiz norte-americana.
Mas a dúvida também revelou uma visão limitada sobre o que é o rock. Ao longo da carreira, Dolly escreveu canções, gravou com artistas de diferentes estilos e influenciou músicos que não pertenciam ao country. Sua entrada no Hall of Fame reconheceu justamente essa capacidade de atravessar fronteiras.
Na cerimônia de 2022, ela apresentou “Jolene” com uma banda formada por músicos associados ao rock, incluindo Rob Halford, Simon Le Bon, Pink, Pat Benatar, Annie Lennox e Dave Stewart. A apresentação funcionou como uma espécie de resposta ao debate: Dolly não precisava abandonar sua identidade para ocupar aquele palco.
‘Rockstar’ nasceu depois da entrada no Hall of Fame
A ideia de gravar um álbum de rock surgiu como consequência direta daquele momento. Dolly decidiu aceitar o desafio e criou um projeto que combinava versões de clássicos, músicas inéditas e participações de artistas de várias gerações.
Lançado em novembro de 2023, Rockstar tem 30 faixas: 21 covers e nove músicas originais. O álbum foi produzido por Kent Wells, colaborador de longa data da cantora, e apresenta Dolly reinterpretando canções que vão dos Beatles ao Queen, passando por Rolling Stones, Journey, Lynyrd Skynyrd e Heart.
O projeto também foi uma forma de revisitar músicas que fizeram parte de sua formação. Dolly cresceu ouvindo diferentes estilos no rádio e sempre tratou o country como parte de uma árvore musical maior, conectada ao blues, ao gospel, ao folk e ao rockabilly.
Paul McCartney e Ringo Starr aparecem juntos em “Let It Be”
Um dos momentos mais simbólicos de Rockstar é “Let It Be”, dos Beatles. A gravação reúne Paul McCartney e Ringo Starr, marcando uma rara ocasião em que os dois ex-integrantes da banda aparecem juntos em uma nova versão de uma música dos Beatles.
A participação tem peso histórico porque Dolly não apenas regravou um clássico: ela reuniu dois dos músicos responsáveis por transformar o rock em uma linguagem global. A faixa também conta com Peter Frampton e Mick Fleetwood.
Outro destaque é “Bygones”, que junta Dolly a Rob Halford, do Judas Priest, e aos integrantes do Mötley Crüe, Nikki Sixx e John 5. A música é uma das composições inéditas do disco e mostra Dolly trabalhando com uma formação muito distante do country tradicional.
Joan Jett, Stevie Nicks, Elton John e outras lendas participam do disco
A lista de convidados de Rockstar é extensa. Dolly canta “I Hate Myself for Loving You” com Joan Jett, “Open Arms” com Steve Perry, “Every Breath You Take” com Sting, “What Has Rock and Roll Ever Done for You” com Stevie Nicks e “Don’t Let the Sun Go Down on Me” com Elton John.
Também participam Ann Wilson, do Heart, em “Magic Man”; Debbie Harry, do Blondie, em “Heart of Glass”; Pat Benatar e Neil Giraldo em “Hit Me With Your Best Shot”; além de Miley Cyrus, Lizzo, Pink, Brandi Carlile, Chris Stapleton e outros nomes.
A variedade não está apenas nos convidados. Dolly alterna baladas, hard rock, pop rock, glam e faixas com influência gospel. O resultado é menos uma tentativa de parecer uma cantora de rock e mais uma celebração da música que ela passou a vida inteira absorvendo.
“World on Fire” foi uma das principais músicas inéditas
Entre as composições novas, “World on Fire” ganhou destaque. A faixa abre o álbum e apresenta Dolly em tom crítico, comentando a polarização política, a desinformação e a sensação de instabilidade do mundo contemporâneo.
A música também teve importância comercial: tornou-se a primeira canção de Dolly a alcançar o topo de uma parada de rock da Billboard. O feito mostrou que a cantora não estava apenas visitando o gênero como convidada, mas conseguia competir dentro dele com material próprio.
Outra faixa original, “Bygones”, aproxima Dolly do hard rock, enquanto “Rockstar” funciona como uma declaração de princípios. Em vez de pedir autorização para ocupar aquele espaço, a cantora assume o título e transforma a própria dúvida em conceito artístico.
Dolly já havia flertado com o rock antes de Rockstar
Embora o álbum de 2023 tenha sido sua incursão mais direta no gênero, Dolly nunca esteve completamente distante do rock. Sua música sempre dialogou com o pop e com o rockabilly, e várias de suas composições foram reinterpretadas por artistas de estilos diferentes.
“9 to 5”, por exemplo, tornou-se um clássico pop e foi regravada por nomes de várias gerações. “Jolene” também ganhou versões de artistas ligados ao indie, ao rock e à música alternativa, como The White Stripes, Miley Cyrus e Olivia Newton-John.
Em 2014, Dolly se apresentou no Glastonbury, na Inglaterra, aos 68 anos. O show reuniu uma das maiores multidões da edição daquele ano e mostrou que seu repertório funcionava diante de um público que não necessariamente havia crescido ouvindo country.
A apresentação também reforçou uma característica central de Dolly: sua capacidade de transformar músicas intimistas em grandes momentos coletivos. No palco, “Jolene”, “9 to 5” e “Coat of Many Colors” ganharam a dimensão de hinos.
A ligação com o Mötley Crüe continuou depois do álbum
A parceria com o Mötley Crüe não terminou em Rockstar. Em 2025, Dolly participou de uma nova versão de “Home Sweet Home”, clássico lançado pela banda em 1985.
A música já tinha uma relação especial com o público do grupo. A versão original foi usada durante anos como encerramento de shows e se tornou uma das baladas mais conhecidas do glam metal. Com Dolly, a faixa ganhou uma nova camada emocional, aproximando o peso da banda da tradição vocal e narrativa da cantora.
A colaboração também foi curiosa porque “Home Sweet Home” sempre teve uma estrutura próxima da balada country: piano, melodia sentimental e uma letra sobre distância, estrada e saudade. Dolly apenas tornou explícita uma conexão que já existia na composição.
Dolly Parton também ajudou a aproximar country e rock
A influência de Dolly sobre o rock não se limita às participações em discos. Sua forma de escrever canções simples, diretas e emocionalmente precisas ajudou a criar pontes entre o country e outros gêneros.
Ela também foi uma das compositoras responsáveis por mostrar que uma música de raiz poderia alcançar o público pop sem perder sua identidade. “I Will Always Love You”, escrita por Dolly e popularizada mundialmente por Whitney Houston, é um dos exemplos mais conhecidos dessa capacidade de atravessar públicos.
No rock, essa influência aparece na maneira como artistas reinterpretam suas músicas. As canções de Dolly costumam sobreviver a mudanças radicais de arranjo porque suas melodias e histórias são fortes o bastante para funcionar em diferentes linguagens.
Uma carreira que nunca coube em uma única categoria
Dolly Parton foi cantora, compositora, atriz, produtora, empresária e filantropa. Sua carreira inclui sucessos country, duetos pop, trilhas de cinema, musicais, livros infantis e projetos sociais.
Ela também fundou a Dolly Parton’s Imagination Library, programa que distribui livros gratuitamente para crianças. A iniciativa começou em 1995 e se expandiu para diferentes países, tornando-se uma das marcas mais importantes de seu trabalho fora da música.
Essa multiplicidade ajuda a explicar por que sua entrada no Rock & Roll Hall of Fame provocou tanta discussão. Dolly nunca foi apenas uma artista de um gênero. Sua obra se desenvolveu justamente na interseção entre tradição e reinvenção.
Rockstar não transformou Dolly Parton em uma artista de rock no sentido convencional. O álbum fez algo mais interessante: mostrou que o rock também pode ser entendido como uma atitude de liberdade, curiosidade e disposição para desafiar rótulos.
É justamente aí que a história de Dolly fica mais forte. Ela não precisou abandonar o country para atravessar sua fronteira. Quando recebeu o convite do Hall of Fame, respondeu fazendo aquilo que sempre fez melhor: transformou uma dúvida em música.