Uma música voltou depois de 38 anos, um copo de cachaça era água e duas bandeiras subiram ao palco. Em que ordem tudo aconteceu?
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O Iron Maiden abriu o show de São Paulo, no domingo, com quatro músicas da era Paul Di’Anno, e três delas estavam havia anos fora do repertório. O resto da noite trouxe um copo de água tomado por cachaça, uma máscara, duas bandeiras e uma música que sumiu por 38 anos.
A lista reúne dez desses momentos, na ordem em que aconteceram, para quem vai à Arena da Baixada na quarta-feira, 28, saber onde prestar atenção. O critério é a resenha de Igor Miranda na Rolling Stone, e as datas de ausência vêm de outra matéria da revista, consultadas em 26 de outubro de 2026. Curitiba pode mudar a ordem, mas o começo já se sabe: a banda precisou de alguns minutos para pegar o jeito.
“Murders in the Rue Morgue” (1981)
fora do repertório desde 2005 · abre o set, depois da intro “The Ides of March”
Com a intro ainda no ar, a banda atacou a música abaixo da velocidade da gravação de estúdio, e Bruce Dickinson, aos 68 anos, ainda procurava a melhor voz. A resenha poupa o baterista Simon Dawson, que assumiu o lugar de Nicko McBrain quando ele se aposentou das turnês, no fim de 2024: o andamento, segundo o texto, parece ter sido o que a banda pediu. Escrita por Steve Harris para o disco Killers a partir do conto de Edgar Allan Poe sobre um crime numa rua de Paris, a música vive de riffs encadeados e de pressa, e é por isso que a lentidão se notou. Faltava uma música para o primeiro susto visual da noite.
“Killers” (1981)
fora do repertório desde 1999 · terceira do set
Eddie entrou em cena empunhando uma machadinha, a primeira aparição do mascote no palco, e o telão levou a música para um beco do metrô de Londres, segundo a prévia da Rolling Stone. A resenha achou a execução potente. É a faixa-título do segundo disco da banda, assinada por Harris e por Paul Di’Anno, o vocalista da época, e narrada do ponto de vista de quem mata. Entre ela e a música seguinte, Dickinson parou para dizer que o Brasil tem lugar especial no coração do grupo, e o público gritou o nome dele por tanto tempo que ele esperou, sorrindo, para continuar.
“Phantom of the Opera” (1980)
fora do repertório desde 2014 · quarta do set
Foi aqui que o show começou a se encaixar, na leitura da resenha. Mais lenta e cheia de mudanças de andamento, a música deu à banda o chão que as anteriores não tinham, e Dickinson soou mais quente. Harris a escreveu para o disco de estreia, sobre o fantasma da Ópera de Paris, em mais de sete minutos que alternam peso e calma. A virada se confirmou na seguinte, “The Number of the Beast”: com pirotecnia pesada e o solo de Adrian Smith reavivado por um pedal wah, a resenha chamou de absurda a atuação de Dickinson, dez anos depois de vencer um câncer na língua.
“Infinite Dreams” (1988)
38 anos sem turnê · sexta do set, entre “The Number of the Beast” e “Powerslave”
Antes do primeiro acorde, uma frase de Dickinson: “no Brasil, esse país incrível, todos precisam poder ter sonhos”. A resenha ligou a fala ao clima de um domingo de segundo turno e viu a música render mais para o público dedicado do que para o estádio inteiro. Ela vem do disco Seventh Son of a Seventh Son, o conceitual de Harris sobre o sétimo filho de um sétimo filho, e fala de sonhos que voltam toda noite. Tocada 96 vezes na turnê daquele disco, sumiu das setlists até a estreia da turnê atual, em Atenas, em 23 de maio. Para Curitiba, é a aposta de quem ama o álbum.
“Powerslave” (1984)
sétima do set · com máscara e Eddie faraó no telão
Dickinson apareceu com uma máscara curiosa, e o telão mostrou Eddie faraó sob climas e enquadramentos diferentes, num dos destaques da noite para a resenha. A faixa-título do disco de 1984 é dele: Dickinson escreveu a letra de um faraó que, no auge do poder, encara a própria morte, tema que também deu ao disco a capa com Eddie vestido de egípcio. É na música que a novidade visual da turnê mais aparece, o telão digital no lugar dos cenários pintados. A seguinte, “2 Minutes to Midnight”, mais próxima do hard rock, serve de ponte para o épico que a resenha descreve em seguida.
“Rime of the Ancient Mariner” (1984)
fora do repertório desde 2009 · nona do set
Dickinson bebeu o que achava ser cachaça, descobriu que era água e reagiu em voz alta: “é água”. Emendou que cachaça demais faz alguém ver um albatroz no céu, e a piada tem endereço. A música de Harris, que fecha o disco Powerslave, põe em mais de treze minutos o poema de 1798 de Samuel Taylor Coleridge, em que um marinheiro mata um albatroz e paga por isso. Em São Paulo, o telão acompanhou a longa parte instrumental com imagens de cinema e efeitos sincronizados com o som.
“Run to the Hills” (1982)
décima do set · catártica e política
A resenha a chamou de catártica, e a política está na própria música. Single do disco The Number of the Beast, o primeiro com Dickinson, ela foi escrita por Harris e conta a invasão, o massacre e a colonização dos povos indígenas, primeiro do lado de quem foi atacado e depois do lado de quem atacou. Logo depois vem “Seventh Son of a Seventh Son”, épico progressivo que ilustra o contraste do set, que mistura as músicas mais diretas da banda com as que fogem da caixinha.
“The Trooper” (1983)
décima segunda do set · Eddie soldado, bandeiras do Reino Unido e do Brasil
Eddie voltou de soldado, num duelo de espadas, enquanto Dickinson empunhava a bandeira do Reino Unido e, entre os solos, a do Brasil. A música nasceu de uma batalha real, a carga da Brigada Ligeira britânica na Guerra da Crimeia, em 25 de outubro de 1854, a mesma data do show de São Paulo, 172 anos depois. Harris a pôs no disco Piece of Mind, o único do qual o set de 2026 toca uma faixa, e o ritmo galopante do baixo e das guitarras evoca a cavalaria.
“Hallowed Be Thy Name” (1982)
décima terceira do set · interpretação mais teatral do vocalista
Dickinson começou e terminou a música dentro de uma cela, na interpretação mais teatral do show, segundo a resenha. A cena vem da letra de Harris, que fecha o disco The Number of the Beast com um homem contando as horas antes de ser enforcado. A música abre lenta e acelera até um final de peso. Ela veio a uma música do fim do set principal, e serve de medida do fôlego que a voz ainda tinha: a mesma que, na abertura, procurava o tom. A última do set principal, “Iron Maiden”, também saiu abaixo da velocidade original, na avaliação da resenha.
“Fear of the Dark” (1992)
bis, penúltima do set · auge da resposta popular
O estádio inteiro cantou, pulou e, em alguns pontos, se abraçou. O bis tinha começado com “Aces High”, com Dickinson de piloto de caça, e a música chegou no ponto em que o público já estava inteiro na mão da banda. Harris a escreveu como faixa-título do disco de 1992, a única do set que não vem dos anos 1980: abre em voz baixa, com um narrador assustado, e acelera até o refrão que a plateia assume como coro. Depois dela, o Maiden fechou a noite em “Wasted Years”, de Adrian Smith, mantida como encerramento desde a turnê The Future Past.
Significado
Para a resenha, o que São Paulo deixou claro é que a hora de o Maiden se aposentar ainda não chegou: depois de mais de 50 anos, a banda abriu a noite devagar e a fechou com 50 mil pessoas cantando. O grupo já anunciou datas na América do Norte em abril e maio de 2027. Curitiba confere na quarta, às 20h50.
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